sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Mundo e Vida


Criação de perus


Venda ambulante de perús em Lisboa pelo Natal 

PERÚ DO NATAL



Creio que por todo o país, chegou a estar muito arreigado o hábito da ementa da ceia de Natal das famílias incluir carne do peru.
Os tempos são outros, a vulgarização da ave, que passou de doméstica a criação de aviário veio fazer com que apareça nos talhos e nos supermercados todo o ano, portanto menos desejada numa época específica, como o Natal.
Depois quer se queira ou não, a carne de aves de capoeira, uma vez criadas em aviário não fazem tão bons cozinhados, já não dão a antiga áurea à cozinheira doméstica, como antigamente.
Tempos houve em que, pela quadra do Natal, por todos os bairros de Lisboa, passava um homem conduzindo uma manada de perus, apregoando-os.
Nos anos sessenta passava, diariamente, no largo Martim Moniz, em Lisboa. Nesta quadra testemunhava, o típico vendedor de perus sempre ali.
Parece que o estou ainda a vislumbrar, junto dos pré-fabricados a albergar as diversas casas de comércio, que substituíam provisoriamente outras velhas, eternizando-se à espera da remodelação total.
Interessante a tipicidade do vendedor e condutor de perus, o casaco sempre amarrado à cintura, pelas mangas e a imitar o grunhido dos animais, como a falar com eles, guiando-os.
Recordar estes tempos, sem sombra de nostalgias é agradável.
Porém, tentemos acompanhar o galopante progresso deste século, que nem a visível recessão travará.

Daniel Costa



quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Mundo e Vida



HISTÓRIA QUE NÃO CONTEI



Da parte familiar paterna, havia a ideia de que não era curial enfatizar os êxitos pessoais. Tinham que ser as pessoas a darem pelos factos e menciona-los. Sempre achei errado, o que pode ser publicitado como facto consumado deve ser dito de viva voz.
Quando se pode mostrar obra realizada, deve mostrar-se, porque obviamente não serão os outros a enaltecer suficientemente o nosso trabalho.
Ao contrário projectos ou quejandos podem merecer a entrada no reino da neutralidade, enquanto o forem, senão poderemos ser tidos e criticados como falaciosos.
De qualquer modo pouco evoquei os meus pequenos êxitos ou feitos pessoais e serão alguns.
Um grande amigo, com quem conversava imenso, um dia disse-me: "já fizeste tudo, de facto és verdadeiro homem, plantaste árvores, fizeste um filho e agora um livro". Fiquei aparvalhado, porque me estava a ser atribuído um alto valor.
De facto, editava e dirigia um pequeno periódico mensal e ao fim de doze meses, mandei encaderná-lo. Era um livro.

A incidência do registo dessa publicação, por me parecer interessante vou aqui trazê-la.
Estávamos no ano de 1973, propriamente no mês de Janeiro, o meu B.I. ainda actualizado, o único documento exigido para registo da Revista, de Direcção e de Edição do periódico, dava-me como trabalhador agrícola, facto que à época estava mais que ultrapassado, por liceu e vários outros cursos, além de que tinha adquirido formação na área gráfica.
Foi com esse documento, que em nome próprio, registei no SNI - Secretariado Nacional de Informação, sito nos Restauradores, em Lisboa, onde era Secretário do Estado de Estado de Informação o Dr. Moreira Baptista, a FRANQUIA - Revista Filatélica Portuguesa.
Ficou obrigatoriamente registada a gráfica que a faria, a tiragem e nome do Director; Daniel Cordeiro Costa, que também podia utilizar o pseudónimo de Miguel Foz.
O atendimento, feito por uma senhora, decorreu dentro da maior cordialidade. Só mais de um ano volvido, apareceu concretizado o registo já tinham saído dois números da Revista, que se iniciara a 15 de Janeiro de 1974, depois do meu telefone estar sob escuta e de durante uns dias, ter notado o "acompanhamento" por um esbirro à saída de casa e outro na entrada de emprego, que ainda mantinha.
A aceitação ter-se-á dado porque a publicação era especializada e (erro) o Director não tinha de ser letrado, o que interessava era saber do tratado ficou isenta de censura prévia
Penso que a sorte também me bafejou, uma vez que sendo associado do Clube Filatélico de Portugal, onde dei conta do projecto.
Fazia parte da Assembleia-Geral um Tenente-Coronel pertencente ao grupo dos três Censores de topo, a quem incumbia aprovar o registo de novas publicações.
Terá procurado ali informações e como lhe foram dadas boas referências. A "palermice" produziu a escusa de se pensar em mais pormenores e de imediato terá sido feita a aprovação.
Vim a aprender entretanto, que filatelia é mesmo um mundo do saber. Considerava-me culturalmente capaz de estar à frente de uma qualquer edição em papel, nem sabia que me faltava aprender tanto, como aconteceu no mundo da filatelia.
Sendo assim, julgo ser detentor do ineditismo em Portugal, pelo menos depois de meados do século XX, ter protagonizado o registo e direcção de uma publicação periódica como trabalhador agrícola.
Nascido na Bufarda, freguesia de Atouguia da Baleia, concelho de Peniche, sou-o certeza.
Da revista FRANQUIA saíram trinta e sete números está encadernada em três volumes. Tornou-se economicamente inviável, curiosamente porque acabou o grande mercado de Angola, donde chegavam assinaturas em todos os transportes aéreos, pagas em cautelas premiadas e rebatidas depois. A transferência de dinheiro era interdita.
Depois, servindo-me dos nomes do ficheiro e da mesma designação e registo, parti para outra versão.
A revista passou a ser mais jornaleco, mais comercial, mais catálogo de vendas de nome "Bolsa Jornal Clube FRANQUIA", Foram editados duzentos e vinte e três números.
Pode parecer mentira mas ajudou a anular a coluna débito.


Daniel Costa





domingo, 15 de novembro de 2009

Olhem Caíu uma Avioneta

OLHEM CAÍU A AVIONETA!...



A interjeição saiu tal qual como menciona o título em terras do Vale Medo, lado Oeste da Bufarda, mais propriamente do Casal Foz, Peniche, gritado em uníssono por um grupinho de trabalhadores, que o tio José Miguel trazia de jorna na hora do jantar (meio dia pelo sol hora do almoço nos centros urbanos).
Do pequeno grupo, que o tio tinha reunido orgulhosamente, por serem todos sobrinhos, de que também eu fazia parte. O objectivo era o de proceder à cava da sua vinha e pomar.
Estávamos em pleno mês Janeiro de 1958, o frio e o vento eram intensos, pelo que o jantar procedia-se no abrigo de uma caniceira a servir de protecção à vinha e árvores de fruto.


De repente ouviu-se o bimotor, que vinha a passar nos ares, o que era vulgar, já que se estava relativamente perto da base aérea da serra de Montejunto. Ao ouviu-se um estrondo, a reacção foi a de ver o que se passara afinal.
O aparelho estava despenhado, desfeita e espalhada a sua estrutura apenas a algumas dezenas de metros, no meio de uma enorme extensão plana, com culturas de trigo, que ainda estava pouco saído da superfície da terra.
Pensou-se no que teria acontecido ao ocupante ou ocupantes, por algumas horas não houve respostas, só a imaginação trabalhava.
Depois a verificação pesarosa da existência de um cadáver, no terreno. Era o da Nazaré, viúva do José Pão, que estava sozinha, na extensa planície a mondar trigo no terreno de um dos filhos. Naturalmente devido à intensidade do frio, não se avistava outra alma, sem dúvida a mulher estava no local errado à hora errada!... Coisas do destino, dizia muita gente que acorreu!...
Chegados perto da noite, soube-se que a avioneta trazia um só tripulante, este conseguira ejectar-se e munido de para quedas, caiu ileso num outro campo de trigo, também perto do mar a cerca de cinco quilómetros no Paimogo.
Os destroços da avioneta foram sendo encontrados por lavradores, a distâncias enormes, sendo recolhidas por estes, procurando empregá-los em proveito próprio.
Fica outro apontamento de vida não muito longa, porém muito vivida.


Daniel Costa





sábado, 7 de novembro de 2009

mundo e vida

UMA DAS POUCAS PEÇAS QUE ESCREVI COM A PALAVRA FILME, DEDICO-A COM AMIZADE À GRANDE MULHER RENATA, POR QUEM TENHO UMA ESTIMA ILIMITADA.


FILMES - LUSOMUNDO E O SENHOR AURÉLIO



"O diabo sabe muito, não por ser diabo mas por ser velho". Por mim, que já fiz trinta anos, julgo que a máxima não deve ser assumida.
Sempre me ocorrem memórias, por vezes chegam com os sonhos, como se estes fossem alfobre. Não é que me veio à memória o senhor Aurélio que os céus guardarão?
Passava-se nos anos sessenta, à tarde diariamente aparecia o emissário da Lusomundo, com o original fotográfico, Encomendava uma fotogravura do mesmo e levando feita uma outra, que deixara na véspera a executar.
As gravuras ficavam sempre desmontadas (sem calços de madeira), prontas seguirem para a galvanoplastia afim de servirem de molde a poder mandar executar repetições em chumbo para servirem em campanhas publicitárias de estreias de filmes em salas de cinema da capital.
Recordo o senhor Aurélio, aparentava figura apagada, parecia mais um criado barato da Lusomundo. Seria apenas para quem pensasse assim, visto descobrir ser bom conversador e dominava todo o aspecto das campanhas insertas nos jornais, para as estreias dos filmes.
A figura acabava por ser simpática no tratamento e porque tudo aparecia planeado, não se dava pela pessoa, só não passaria despercebida a um bom observador que a podia refutar de típica. Era de estatura baixa, nada novo, tratava dos assuntos em poucas palavras, trazia escrito o importante quando o era fazia sempre o seu cumprimento, era mesmo amigável, enquanto misterioso nas suas visitas diárias.
Mais nada era visível.
No fim de cada mês, mediante guias de remessa, a factura era enviada á empresa distribuidora de filmes e a mesma fazia normalmente o pagamento durante os trinta dias seguintes estipulados.
Em regra funcionava a via postal, para assuntos envolvendo facturação e pagamentos.
Só gora a distribuidora Lusomundo, que entretanto, se alargara à Cabo, mercê de alterações diversas, como a entrada noutra rede e a inclusão de novos quadros, muda de designação e a 01 de Novembro de 2007, passa a ser TVCine - Canais de Cinema.
Esta notícia lida recentemente trouxe-me à memória o inefável senhor Aurélio e a sua visita diária.
Diria, um homem mistério de agradável recordação!


(Escrito e publicado em 18/10/2007)


Daniel Costa

domingo, 1 de novembro de 2009

Mundo e Vida




FIGURA INESQUECÍVEL – AMÉRICO TOZZINI



Na verdade há pessoas marcantes na nossa vida, como aconteceu com Américo Tozzini, que não chegou a este século, segundo julgo, o motivo foi a inevitável viagem ao mítico mundo do além. Afinal sabia que estava já na presença de um amigo de idade avançada, além de que bastava observar a sua escrita a denunciar decrepitude.
Mas devo render-lhe a minha homenagem, porque ao iniciar-me como Director e Editor da minha revista FRANQUIA, recebi dele apoio, alguém de longe e enquadrado em assunto tão especializado, como é do vasto mundo comunitário da filatelia.
A minha intenção era abranger tudo o que fosse a comunidade de língua portuguesa, incluindo o Brasil. Daquele país estendia-se-me logo uma mão.
De facto o Tozzini fazia uma coluna especializada no Jornal de São Paulo e fazia o "Cinco Minutos com a Filatelia", no programa radiofónico "Pulo do Gato", da Rádio Bandeirantes.
Passei a receber regularmente entre vasto correio o daquele amigo, sempre com as novidades brasileiras do âmbito e o importante estímulo.
Passou a tomar iniciativas sem me consultar, fazendo marketing da minha publicação, com a oferta de assinaturas aos vencedores de um concurso que promovia no "Cinco Minutos com a Filatelia" mencionando a Revista e promovendo-a entre os muitos jornalistas brasileiros da especialidade.
Fazia muitos comentários, escrevendo expressões a propósito, como fulano é daqueles que se "põem em cima do muro, esperam que a procissão passe para saltar para a frente".
Achei este dito o máximo, adequava-se perfeitamente à pessoa em questão, fixei e emprego-o por vezes.

 Aerograma do Correios do Brasil, dos muitos que Américo Tozzini me escreveu

Como Director, em tudo o que escrevia usava o pseudónimo de Miguel Foz, por admiração familiar talvez em jeito de homenagem.
Sobre isso escreveu: "Você com um nome tão machão como Daniel Costa não precisa nada de pseudónimo".

O pseudónimo estava registado oficialmente, disse-lho e expliquei os meus porquês da utilização.
Cheguei mesmo a ter uma pasta especial onde arquivava essa vasta correspondência. Actualmente mantenho apenas vários documentos por serem peças de filatelia.
Por fora das cartas sempre me "mimoseava" com palavras como grande Jornalista ou Editor.
Durante cerca de trinta anos durou a troca de correspondência, até que se terá dado o falecimento do meu grande amigo Tozzini


Daniel Costa