segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Mundo e Vida





O FOLCLORE

EM TERRAS DE DEU-LA-DEU


A XII MOSTRA FILATÉLICA DE 15 A 20 DE AGOSTO DE 2007, foi pretexto para o CINE CLUBE DE MONÇÃO, editar um livro historiando, além das suas realizações exposicionais, bastante do folclore da região, do Alto Minho.
O livro de que foi autor Fernando Prego, que também coordenou superiormente. Acrescente-se que se trata de um animador do Clube, fazendo parte da Direcção.
Devo dizer que Fernando Prego era amigo de há anos, devido à filatelia. Pessoalmente encontre-me, apenas, uma vez com ele num almoço de confraternização, na cidade dos Arcebispos, Braga.




O livro é composto por três partes a saber:


I PARTE


I - O PASSADO:

Roconarte
Rancho Folclórico dos Camponeses de S. Pedro de Merufe
Grupo Danças e Cantares de Sago


II – O PRESENTE:


Rancho Folclórico Ao Moleirinhos de Gadanha
Rancho Folclórico da Casa do Povo de Barbeita
Grupo Folclórico das Lavradeiras de S Pedro de Merufe
Grupo Folclórico de Pinheiros
Grupo da Danças e Cantares de Mazedo
Rancho Folclórico de Santa Maria de Moreira
Grupo Folclórico Estrela dos Vales
Grupo Folclórico Amigos de Longos Vales


GRUPO FOLCLÓRICO  DAS LAVRADEIRAS DE S. PEDRO DE MERUFE


II PARTE


ANTOLOGIA:


A propósito de folclore (mas não só…)


III PARTE


CÁ POR CASA:


Elementos para a história da filatelia no Cineclube de Moção…


CANTIGAS QUE O ROCONORTE CANTOU
Destaco a seguinte:

BATE CERTO
I
Ora bate certo
Bate certo e bate bem
A modinha do bate certo
Dá saúde quem o tem


II
Ora bate certo
Bate certo no terreiro
Bates tu e bato eu
Tu depois e eu primeiro

III
Ora bate certo
Bate certo eu também vou
A modinha do bate certo
‘inda agora aqui chegou


GRUPO FOLCLÓRICO ESTRELA DOS VALES

Fui lendo e encontrei uma descrição do mangual (malhal) no linguajar do Oeste (no concelho de Peniche), malho em Monção.

MALHO – instrumento agrário, destinado a debulhar cereais, e constituído por duas varas, uma maior, que é o cabo, e outra mais pequena, que bate o cereal, reunidas e articuladas por peças de coiro.


É o mangual do resto do país.

 MANGUAL

Quem diria, nos anos cinquenta que o “malhal” de, que possuí um exemplar e com ele fiz parte de bastantes grupos de malhadores, se viria a tornar peça museológica, como já vi?
Escrevi em tempos
um poema onde aludia à safra de malhar o milho.
Porém o que pensei foi mencionar o livro, o amigo Fernando Prego, que a filatelia fez amigo, assim como a riqueza do folclore minhoto no caso, o de Monção, na fronteira norte de Portugal.


 

Daniel Costa

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Mundo e Vida




ROTEIRO DA PINTURA PORTUGUESA


Com a designação em título, o Museu Nacional de Arte Antiga, editou em 1968, um livro em tipografia, com um caderno de extra-texto de 36 páginas a 4/1 cores.
Imprimiu a Comp. e imp. na GRÁFICA PORTUGUESA, LDA. – Rua Nova do Loureiro, 26 – Lisboa.
As fotogravuras em zinco foram executadas na Fotogravura União, com entrada, na altura, na Travessa das Mercês, 46 S/L.
Naturalmente, porque a tiragem era pequena, saia menos onerosa, a impressão em tipografia, cujo sistema ainda funcionava, mesmo para todos os jornais.
As imagens são de quadros famosos, existente no Museu citado de que se executaram “slides”, do que se reproduziram fotolitos, que depois postos em contacto com o zinco e por meio de arco voltaico, a que se adicionavam carvões (designavam-se assim), emitindo uma luz extraordinariamente potente a fazer aderir os ditos.
A seguir uma máquina gravava. Restava o gravador, normalmente um artista de sensibilidade, com os seus pincéis na sua bancada, para dar o devido contraste aos quatro zincos, cada qual representado uma cor, ou sejam a quatro cores primárias: amarelo, azul, magenta e preto.
Gravuras entregues e o impressor ficou um trabalho de muita responsabilidade. Foi pedindo pareceres ao próprio chefe da oficina da Fotogravura, que realmente era um verdadeiro mestre. O impressor, também bastante competente, não hesitou em demonstrar a humildade de ir pedindo opiniões.
Finalmente, o impressor levou ao mestre um livro de oferta.
Desempenhando o lugar de coordenador das entradas e saídas de todas as obras, tendo obtido a amizade do impressor, alguém de carácter, mostrei certa pena de não ter sido contemplado, uma vez que ia fazendo a minha pequena biblioteca.
Fui entendido, mais inquirido mostrei interesse, ainda que apenas nas gravuras legendadas. Como resposta, ouvi hum!... Também tinha pensado em si, porém não me foi possível mandar fazer mais livros completos, com as sobras!
Aconteceu que de tarde, estava ele a entregar-me apenas, os extra-textos encadernados.
Foi o que pude arranjar!... Disse.
São as 18 gravuras de quadros, que compõem o caderno que passo a apresentar:







































                                     











Daniel Costa (texto)


sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Mundo e Vida


MÃOS QUE FALAM COM PRESSA


“Mãos Que Falam com Pressa”, é o título de um livro que a EDITORA PAPIRO lançou ontem, no vasto espaço que a Livraria Barata dispõe na sua Livraria da Avenida de Roma, em Lisboa.




Da autoria de Eduarda de Andrade Mendes, com fotografias de André Mendes Pedroso, apresentou-o a sua coordenadora, pela Editora, Andreia Varela.
Em seguida leu alguns textos, pelo que foi seguida a leitura do prefácio, pela própria autora do mesmo Maria Manuela Blanco.
A autora do livro, também fez a leitura de um texto.


Ao centro a autora rodeada, à esquerda a coodenadora, à direita a prefaciadora

Li em diagonal, diga-se, todo o livro o suficiente, para dizer que, não sendo grande e volume, 106 páginas, do formado 23 X15, é um grande livro no seu conteúdo, que vale a pena ler, pelo menos quem gostar de profunda e bem delineada literatura.
Os textos, um pouco poéticos, sendo de Eduarda Mendes, não me surpreenderam. Ceio até que reconheceria a autora apenas pela leitura.
É que a tenho lido bastante, e talvez por defeito profissional, ainda que não intencional, apanho os habituais tic’s, diga-se o uso de palavras, que fazem muito suas.


Maria Manuela Blanco, que me perdoe, mas não resisto o reescrever aqui o seu adequadíssimo Prefácio, que dirá tudo sobre o livro:


- Ao ler este livro, folheando cada folha, sentindo cada palavra usada com mestria que as emoções motivam, sentimos que a Eduarda.
Sentimo-la num leque crescente de sentimentos que nos tocam por verdadeiros, por sentidos e pela transmissão das vivências que contêm.
Como um pintor usa a paleta das cores e constrói um belo quadro, nestes textos, quer em prosa quer em verso, as palavras brotam, ora em cores quentes e doces, ora numa miscelânea de tons que nos fazem seguir os sonhos.
O sonho que nunca devemos perder de vista, e que é obra é concretizado pela autora.
(Maria Manuela Blanco)


Não me dispenso também de, com a devida vénia, deixar também o pequeno e significativo poema do livro:


Quando o sol se põe,
Cai o vento vadio,
Queda-se o silêncio desarmado
Tiram-se os sapatos apertados
Arrastados de morte.
Arrancam-se os nós da garganta,
Soltam-se gemidos ocultos.
Quando o sol se põe,
Abre-se o portão da pobreza!

Por fim a sessão terminou com as habituais assinaturas da feliz autora, nos exemplares que lhe foram apresentados.
Parabéns Eduarda, por um sonho cumprido.


Daniel Costa

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

mundo e vida



DUZENTOS ANOS DA IGREJA
DA SENHORA DO AMPARO
DE BENFICA, LISBOA


De 10 a 18 de Dezembro a igreja da Senhora do Amparo, a matriz da freguesia de Benfica, Lisboa, festeja os duzentos anos da sua construção com grandes solenidades diária.
Uma grande acção Apostólica, que o seu Pároco, Cónego José Traquina, ousou levar efeito.
Assim:
- No dia 10 (da dedicação), 19h00, o Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa, concelebrou com vários sacerdotes e presidiu a uma Eucaristia.
- Dia 11 Grande Vigília de Oração das 22h00, até às 9h00 seguintes.
- Dia 12 Eucaristia (22h00) Eucaristia pelo Senhor Bispo Auxiliar de Lisboa, que residiu, seguida de uma de Procissão com a imagem mais antiga de Nossa Senhora do Amparo.


- Dia 13 (11h00) Eucaristia presidida pelo Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, transmitida pela estação televisiva TVI.
15h00, Concerto Mariano pelo Coro Laudate de S. Domingos de Benfica.
- Dia 14 (21h30) Conferência pelo Senhor Manuel Clemente, Bispo do Porto.
- Dia 15 (21h30) Teatro “Painel das Verdades”, no Salão Paroquial.
Autor: Álvaro Cordeiro
Encenação: Paulo J. Vaz e Vicente Morais
Intérpretes: Mercêdes Rebelo, Paulo J. Vaz e Vicente Morais
- Dia 16 (21h30) Concerto de Órgão de tubos, da Igreja Paroquial, por João Vaz. (não se realizou por ter sido possível concluir os trabalhos de reparação do Órgão).
- Dia 17 (19h00) Eucaristia com oração de Vésperas, presidida pelo Cónego Nuno Brás, Reitor do Seminário dos Olivais.
21h30, Serão Sacerdotal, no Salão Paroquial, com a presença dos seminaristas do Seminário dos Olivais.
Dia 18, Solenidade de Nossa Senhora do Amparo
- 19h00, Eucaristia pelo Pároco
- Jantar no Salão Paroquial (por inscrições)
- Espectáculo popular “Melodias de Sempre”


Segundo documento conservado no arquivo da Paróquia, a foi 10 de Dezembro de 1809, que se iniciaram as cerimónias da sagração da Comunidade Paroquial da Senhora do Amaro de Benfica, as quais, como agora ao perfazerem 200 anos, se prolongaram até dia 18 do mesmo mês.


Bicentenária igreja de Benfica (foto Internet)


Painel recente de azulejos no muro, à direita da igreja (foto Daniel Costa) 
Há já bastantes séculos que as gentes da zona de Benfica constituem uma paróquia. As primeiras referências remontam aos finais do século XIV.


Desenho da bicentenária igreja, mostrando tempos recuados (foto internet).

Constituída durante séculos por casais dispersos, a Paróquia de Benfica passou a apresentar o actual aspecto cosmopolita.
A actual igreja representa já a terceira construção. Antes dela existiram duas, situadas sensivelmente, no mesmo sítio, que constituíram o lugar de culto da Paróquia, que conta com 600 anos.
É a digna celebração do bicentenário da construção, do belíssimo templo que termina no próximo dia 18 de Dezembro.
Não esqueço a palavras do padre Álvaro Proença, então seu Pároco, cujo nome está perpetuado na toponímia de Benfica, perto da igreja.
Disse:
- “A freguesia de Benfica possui mais almas que a maioria das cidades do país”!


Conégo José Traquina, pousando junto dum quadro que representa a igreja do Bombarral (foto jonal "Área do Oeste", de 14/9/2007)

Não termino sem deixar um aceno de simpatia pelo actual Pároco, Cónego José Traquina, que já tinha dado provas de competência pastoral na sua anterior Paróquia do Bombarral.


Daniel Costa

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Mundo e Vida




MEMORIAL A ROUSSADO PINTO



Recordar o passado não é viver apegado somente a más memórias se, se tiver uma mente optimista.
Prestar a devida homenagem a quem deve ser lembrado, pelo espírito empreendedor e aberto, pode ser ainda uma maneira de encarar as suas nuances pelo lado positivo, mesmo pensando em alguém, com quem chegámos a conviver com admiração e que deixou de pertencer a este mundo, como é o caso de José Augusto Roussado Pinto, finado em 03/03/1986, já vão 24 ano.
Fazia o favor de ser um bom amigo, segundo expressam alguns livros da sua autoria que me fez chegar com significativas dedicatórias.
Profícuo jornalista e autor multifacetado e incansável. Elaborou e dirigiu durante vários anos, o que considero a sua maior obra, o "JORNAL DO INCRÍVEL", que muitos ainda recordarão. O semanário sempre me foi amavelmente remetido até ao número 278, edição de 9 a 16 de Março de 1985. Aquele número tinha já a direcção da sua filha Zaida Roussado Pinto, dava conta da morte do seu criador aos 58 anos.
Nessa edição vinha reproduzida a última maqueta do finado Director, que quase sozinho dava semanalmente conta do trabalho de pôr de pé um periódico da envergadura de um "INCRÍVEL".
Há também a destacar "JORNAL DA SEXOLOGIA", figurando como Directora a sua filha, porém era visível a concepção e a criatividade de Roussado Pinto. Foram sempre saindo outras realizações, no campo literário, sobretudo Policiais, revistas de fotonovelas, contos vários, Banda Desenhada com textos da sua autoria, etc.Sabendo-se que usou dezenas de pseudónimos, em livros Policias, "Westerns", Espionagem, Amor, Aventura, segundo me foi afirmado de viva voz ,seria difícil mencionar todos.Trabalhou em vários jornais, como o "DIÁRIO ILUSTRADO", que existiu há várias décadas, de cujas reportagens concebeu livros como "EU FUI VAGABUNDO" e outros, com assinatura própria ou "A CABEÇA DA OUTROS", uma interessante compilação de pensamentos de vários escritores e até de anónimos, assinado com o pseudónimo de Steve Hill.

Estes livros foram editados por Portugal Press, situada na Rua Coelho da Rocha, 28 em Lisboa, de que era sócio creio que com todos os poderes.
Revistas de fotonovelas como "CARÍCIA" ou "IDÍLIO" em que utilizou um pseudónimo, que se lhe tornou muito comum, de Edgar Caygil.
Curiosamente privei com várias personagens, antes e depois da existência dos títulos, até com o muito conceituado fotógrafo, J. Nunes Correia, falecido em aparatoso desastre ao serviço da extinta revista "FLAMA".
Publicações, em edição da Palirex, Rua Padre Francisco, 14 Lisboa, de que também fez parte, compondo um trio de associados, todos com poderes administrativos.


O pseudónimo de Ross Pynn, talvez tenha sido o que mais utilizou, nas suas inúmeras produções.
Também foi incansável como autor e cronista de Banda Desenhada, como " O PLUTO", "MUNDO DE AVENTURAS", "TITÃ" e outros onde teve como companheiro um criador de BD, da envergadura de Victor Peón, com quem vim a conversar já depois da Revolução de Abril, no seu regresso a Portugal, outra morte prematura.
Roussado Pinto, assim como se dedicou a várias compilações, escreveu e editou bastantes romances Policiais, curiosamente quase, com cenários da América, assinado com nomes a dar a ideia de autor americano nato conhecedor daquele país, deixando assim a impressão de se movimentar naqueles meios. De facto o autor nunca visitou aquele Continente, disse-me um dia.
Inventava e imaginava os locais com as suas habituais leituras.
No entanto como tenho predilecção por romances Policias, desfolhei alguns assinados com nomes americanos, sempre conhecia quando eram daquele autor. Até sabia que em ocasiões de produzir mais um volume, era muito capaz de se isolar, um fim-de-semana, num qualquer hotel algures e saia a produção.
Da saudosa memória foi a revista "SELECÇÕES MISTÉRIO", de que foram publicadas nove números, onde Roussado Pinto colaborou quase sempre com contos Policiais inéditos, que me era dado ler como toda a revista, publicação do também incansável Lima Rodrigues, que me convidou a participar, portanto vim a receber toda a edição, depois de enviar as minhas produções para um jornal que ele havia adquirido, no entanto fui apanhado em altura de estar a sustentar a criação da minha própria revista o que me privou de alinhar com parceiros de valor como os que ali pontuaram.
No número seis de Novembro de 1981 foi publicada a realização de um convívio homenagem, mais que devida a José Augusto Roussado Pinto, teve lugar num restaurante de Santarém. Reuniu cerca de cento e cinquenta amigos que quiseram preitear-lhe a grande admiração, entre eles contavam-se nomes como o de Artur Varatojo, já com oitenta e um anos, Lima Rodrigues e muitos outros.
Foi apresentada uma exposição de trabalhos seus e entre vários discursos, assinalou-se o evento com a entrega ao homenageado, pelo seu neto, de uma salva de prata.
Sobre assuntos, sobretudo alguns dos muitos que abordava no seu jornal, cheguei a questioná-lo por os mesmos me parecerem ficção. A resposta era sempre igual, tudo o que ali era dito partia da veracidade. Mesmo tendo em conta o momento actual em que a ficção por vezes ultrapassa a realidade, tenho de equacionar a grande capacidade criadora ficcionista de que era detentor José Augusto Roussado Pinto.

"Capital": 4/5/1985


 "Capital": 5/3/195

A fatalidade chegou com o terceiro colapso cardíaco, que se pode entender pelo grande apego à realização patenteada, que o levava a trabalhar muitas horas.
Pouco depois do segundo colapso do género, que o levou ao hospital em 1982, o primeiro ocorrera em 1975, casualmente encontrei-o nos Restauradores, falámos pela última vez. Ali conversámos e como era bastante mais velho, além de focar o acidente que sofrera, achou por bem fazer-me recomendações sobre esse bem que é a saúde, parece que adivinhava porque o fazia. Concluo agora não ter sido por acaso, visto conhecer-me bem e de longa data.
Depois do segundo acidente voltou ao “INCRÍVEL” com a "febre" que o caracterizava.
No seu mapa astrológico já devia estar inscrito o sinal a indicar o fim do grande trabalhador da arte pela escrita.


Daniel Costa

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Mundo e Vida

A MINHA LISBOA
A MINHA DÉCADA DE SESSENTA


Nunca fui muito de falar de mim, erradamente talvez, porém quando já são passados os trinta anos de idade ( X 2 +), quando se olha o passado com a alegria de viver intacta, pode ter chegado altura de abrir as mãos e ver algo que se considera um pequeno contributo, para o grande todo que é esta sociedade, pode ser altura olhar um pouco das nossas vidas, o que sempre se consideram pequenos êxitos.
Partindo desse pressuposto rememoro a Lisboa de sessenta, década que considero a grande época da minha vida. Tudo me haveria de correr de feição e agradava-me o muito trabalho.
Foi nessa década que, finalmente, passaria a morar na grande capital. Trabalhando ingressei no curso liceal.


Lisboa: Restauradores e Avenida da Liberdade

Ao mesmo tempo fiz um curso de dactilografia, depois um de estenografia, antes de os gravadores o terem ultrapassado, ainda frequentava um curso de Inglês na Berlitz Scool do Conde Redondo, sempre locomovido a pé. Mesmo assim num só ano fiz primeiro e segundo anos liceais, com dispensa de provas orais.
A estenografia era ministrada em sessões individuais. A determinada altura passei a ser exemplo, pelo menos para uma outra aluna, pelo mesmo custo, usufruía o dobro das aulas, com o natural proveito.
Munido dos diplomas obtive o lugar de empregado de escritório, um sonho que perseguia. Sai ás quatro da manhã do trabalho de bar e às nove do mesmo dia estava à espera da abertura do escritório para entrar. Havia sido o primeiro a chegar.
Vim morar na Rua da Bela Vista à Graça, mesmo junto ao seu começo, na Rua do Vale de Santo António. Diariamente percorria todos os trajectos a pé.
Primeiro ia até à Rua das Portas de Santo Antão, ainda no mesmo patrão, passei a ter de subir mais a Avenida da Liberdade, até à zona do Parque Mayer, junto ao primitivo Café Lisboa de muita tradição.
A transição deu-se para o fim da Travessa das Mercês, no princípio, junto à Rua do Século. Ali cheguei a chefiar o escritório, do que não me senti honrado, monetariamente nada veio a resultar.

Igreja da Graça, vendo-se uma panorâmica do Tejo

Muitas vezes chegava ao largo da Graça ideando fazer o trajecto no eléctrico 28, ainda hoje em funcionamento, mais turístico, encontrava sempre fila (ao tempo dizia-se bicha) para o apanhar. Tinha palmilhado já cerca de quilómetro e meio, acabava por achar mais simples, fazer o resto do caminho a pé.
Um dia fiz férias em Maio, para responder e colocar anúncio para novo trabalho. Estas tinham acabado, já tinha entrado ao trabalho, quando chegou uma convocatória que pareceu interessante.
Era do Dafundo, de uma grande empresa gráfica ali me desloquei, apresentei-me a quem fazia a selecção do pessoal.
Fui apresentado ao administrador, Dr. Manuel Metelo, que veio a ser Presidente da Associação dos Proprietários Lisbonenses.
Depois ser acedido examinar-me, no Domingo seguinte, evitando o meu tempo útil de trabalho, condição que impusera.
No dia aprazado, estava eu a fazer testes, findos os quais veio imediatamente a aprovação, com os seguintes comentários:
Afinal o senhor na sua carta de candidato foi muito lacónico!
- Aqui houve a possibilidade de aquilatar o valor dos meus serviços!
- Respondi.
- O senhor é modesto, pediu apenas três mil e quinhentos escudos de ordenado (era bastante), quando os seus novos colegas ganham seis mil!...
Vamos atribuir-lhe, por agora, quatro mil!
- A situação durará apenas alguns meses, depois entrará no sistema remuneratório normal, para a função.
Passados três meses passei ao escalão dos seis mil. Para a época era um grande ordenado, tanto mais que na altura um funcionário público, por exemplo, da classe de trabalho de carteira, auferia mil e oitocentos escudos.
Entretanto também começava a ser agente de seguros de vida, não seria dos piores elementos da equipa, a avaliar pelas comissões que levantava.
Nos anos sessenta casei e fui pai de uma menina, um gosto!
Por tudo isto, os meus anos sessenta terão de ser eleitos, como o período de ouro, únicos de uma existência viva.
Deram-se muitos acontecimentos importantes em Portugal e no mundo. Destacaria a ida à lua por americanos.
A minha Lisboa, se comparada com a globalidade actual, era uma aldeia muito grande. Conheci-a, talvez como ninguém, mesmo os que tinham o privilégio de a terem como berço,
As redondezas e o Parque Mayer fervilhavam de gente, sobretudo à noite. Visitar as salas de teatro do Parque, para assistir à exibição de uma qualquer Revista à Portuguesa, era como um louvor aos deuses.
Vinham excursões de outras terras para ver quadros das piadas em exibição, contundentes, mas sempre na presença de censores e polícias à paisana.
Os estabelecimentos nocturnos internos e os externos das imediações, a partir da dez da noite enchiam-se de clientela artistas, cenógrafos, autores, polícias, carpinteiros de teatro, "habitués" e outros.
Era um gosto assistir por fora a este espectáculo alucinante extra.
Se escolhera viver em Lisboa, a observação vivencial deste ambiente lúdico, para mim, era o culminar do arreigado desejo de morar na cidade.
Depois havia o inefável Chiado, subido a pé.
Lisboa afinal era o máximo!... Já tinha passado a canção, não me lembro quem a cantava. Rezava assim: "No Chiado/à tardinha as meninas vão/em procura de marido", Etc.
Despontava a elegância da Avenida de Roma e sobretudo na Rua Guerra Junqueiro.
Era esta a Lisboa que eu amo, pois até comecei a morar em casarão, com janela a avistar o magnífico Tejo.
Hoje está diferente, nem a conhecerei tão bem, mas para mim, Lisboa será sempre Lisboa. Avistá-la muitas vezes da ponte sobre o Tejo, a 25 de Abril é um sonho. Um espectáculo de inolvidável beleza.


Daniel Costa