sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE

SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE
 
É o título do livro que a grande amiga Mariazita lançou no passado dia 13 de Dezembro de 2015, numa sessão festiva e emotiva, a que tive o prazer de assistir, entre familiares e bastantes amigos. 
Foi uma bonita sessão, uma bonita festa de verdadeira amizade, que em muito honrou a autora.
Cabe dizer, que o conteúdo de SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE, nos dá outra visão, a feminina, da Guerra do Ultramar, com episódios vividos com optimismo, ora narrados em liv
ro.
Dado que no meu livro AMOR NA GUERRA, tal como SAUDOSA ÁFRICA DISTANTE, apresentado na Liga dos Combatentes, pela mesma Mariazita (com a honrosa presença do seu ilustre e saudoso companheiro). Também em jeito de escrita diarística, se situa também nos primeiros anos daquela Guerra, pelo que refere, como aquele, os rudimentares meios no terreno.
Desta vez mais notórios ainda.
Mas da festa, vou mostrar testemunhos fotográficos, também em homenagem à autora.
Daniel Costa

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

O PODER DO VÍCIO


 
O PODER DO VICIO
Há vidas em que a realidade ultrapassa a ficção, o que creio acontecer comigo. Daí muitas vezes escrever na primeira pessoa ao sentir a sensação que minha vida vivida, se cifra em duzentos e vinte cinco anos, qual um novo Matusalém.
O PODER DO VICÍO
 
Se virmos bem o vicio embora, qual demónio, em luta para corromper os humanos, nada poderá contra uma indómita vontade de alguns destes.
Aconteceu comigo, em várias ocasiões, em que soube sair vencedor desse anjo maléfico, a que se dá o nome de VÍCIO.
Em 1963, criei uma Revista de Filatelia, a FRANQUIA – Revista Filatélica Portuguesa. Começa aqui a curiosidade, inscrevi-a no Secretariado Nacional de Informação, assim como o meu nome, como director.
Apresentei a minha identificação (BI) válida, como trabalhador, a que a Estado Novo atribuía a trabalhadores indiferenciados, de fato o BI, à época, constava de duas páginas, e nele era mencionada a respectiva profissão, era eu cavador, quando se cavava e terra. Porém na altura já pertencia ao Sindicato de Revisores de Imprensa.
Portanto em menos de dez anos subi na sociedade, de forma espectacular, sem precisar de pedir, fosse o que fosse a alguém, porque acreditava em mim.
Tinha “explorado” cerca de duzentos patrões e concluído que nenhum me valia. Decidi, por isso, criar o meu meio de subsistência, na área da informação. O que em nada tinha a ver, eu já saber que informação é poder.
A FRANQUIA existiu até 2001.
A revista, com algumas ajudas, mormente de familiares, era como um filho, logicamente foi como um viciante, já que a ela e aos leitores, a quem designava por amigos assinantes, dedicava, mais de dez horas dia, incluindo fins-de-semana.
De lógica em lógica, no ano de dois mil, fui atacado com um AVC – Acidente Vascular Cerebral, com entrada em estado de coma imediato, cerca das nove horas da manhã de 26/07/2000, com 3 horas de trabalho e em jejum total.
Levado para o Hospital de Santa Maria, detectado um coágulo no cerebelo, por minha sorte, foi-me logo aplicada a intervenção cirúrgica. Dai, resultou ter permanecido no coma profundo 30 dias.
Findos os quais passei a estar em semi coma em cuidados intensivos.
Foi nesse estado, que entre vários de que me recordo, aconteceu que, em sonho vi o fac-simile da capa de exemplar de uma FRANQUIA, atravessado na cama, onde estava amarrado, devido a várias tentativas de fugir, sempre com o espírito a pairar na revista.
Ela estava no meu espirito como um vício, ela me fizera cair, ela me tentava salvar.
Ao fim de 15 dias, a minha esposa e a filha foram confrontadas com a minha alta hospitalar, ainda em semi coma. Junto com uma lista de lares para pessoas em cuidados intensivos, em estado terminal e com um relatório médico, cujo último parágrafo reza assim:
 
“Mantêm-se internado na unidade de Cuidados intensivos dependente do pessoal de enfermagem . Não sendo, por enquanto, possível estabelecer um prognóstico adequado. No entanto, parece-me pouco provável que doente retome a sua vida normal”.
Dr.ª. Rosa Pereirinha
Contra as indicações hospitalares, talvez por ousadia, fui trazido para casa, onde estive ainda cerca de dois meses, em semi coma, onde em momentos de lucidez, me vinha à memória a revista e o incontornável desejo de voltar a editá-la.
Escrevia, como Freelancer para a CRÓNICA filatélica, da AFINSA, de Madrid, sobre filatelia de Portugal, a cerca de três meses de ter tido alta do hospital, o Director, telefonou, zangado a perguntar o porque, havia três meses não dava notícias.
Ainda muito inconsciente, pensando na ajuda da filha e no que já fizera antes, respondi ia mandar o trabalho no dia seguinte.
Em resposta, este disse:
- “Amanhã não, hoje e em correio azul”.
Claro, não tive um mínimo de dificuldade em responder afirmativamente e o material seguiu no dia. Como passou a seguir por seis anos, até à falência da AFINSA.
Em Janeiro de 2001, relancei a minha revista e o único dia de tristeza, durante os 15 anos seguintes, foi após dizer em casa: não estou em condições mentais de continuar com a revista.
Era factual, os “trocos” passarem a bater cruzados no cérebro, no fim de estar algum tempo, por exemplo, a paginar a revista.
Depois de 6 anos a dormir 18 horas/dia, vi que já poderia “manipular” a Internet, desfiz-me do computador, sem a mesma, adquiri novo, já apetrechado e o “vício” da escrita veio ao cimo, estava-mos em 2007.
Encontrei-me então num mundo novo. Reconstitui a FRANQUIA, em Blog do mesmo título e recomecei a escrever para o “JORNAL DA AMADORA”, colaboração que já tivera, antes do AVC.
Depois e entretanto escrevi, lancei e eu próprio distribuí ou vendi 9 livros. O meu décimo será lançado em Outubro de 2015, tendo mais dois escritos.
Depois disto tudo, poderei concluir: se tenho vício, o seu nome é TRABALHO.
Para dizer no fim: ABENÇOADO VICIO, que me levou às portas do céu, onde foi buscar o “MILAGRE DA CURA TOTAL”.
 
Daniel Costa
 
 
 
 
 
 
 

terça-feira, 8 de setembro de 2015

MULHER SENSUAL - MONTE DE VÉNUS


Daniel, neste domingo fui surpreendida por uma belíssima homenagem ( na verdade mais uma deste amigo). Luiz Alberto Machado ( pode verificar no google)  tem um guia na internet onde consta todos os grandes escritores e poetas de destaque do cenário cultural do Brasil e do exterior. vários sites sobre literatura, música, artes em geral.  Tem me agraciado com diversas homenagens. Acabou de abrir mais um espaço e nele colocou algumas das minhas poesias.

 


 

Grande abraço!

 

OS VERSOS SABOROSOS RECOLHIDOS DA SARINHA FREITAS

MULHER

Sou a mulher que desejas
Aquela que te faz sonhar
Sou a menina dos teus olhos
A que faz teu coração disparar
Sou o desejo escondido
Que faz a tua loucura aflorar
Sou a ansiedade dos teus dias
A tua febre noturna
Sou a que procuras no céu
E me encontras na terra
Sou apenas uma mulher
Igual a outra qualquer
Menos do que imaginas
E mais do que supões

MONTE DE VÊNUS

No monte de Vênus
Carícias de fogo
Explodem em larvas de prazer
Escorrem entre as pernas...
Violento tremor
Meus seios são duas luas
De um só planeta:
O amor
Minha boca
Saliva teu gosto
Sinto o cheiro
Do homem amado
Terno e vigoroso
Meus olhos, cerrados
Procuram o peito arfante
O afago carinhoso nos cabelos
Silenciosamente,
A paz.

A TUA NUDEZ

A tua nudez
É desejo
Que aviva
A minha realidade dividida
De querer ser possuída
A tua nudez
É minha avidez
Meu delírio
Entrega doída
Descabida traição!
Meu corpo
Nu e sequioso
Dos carinhos teus
Sou eu desnuda
E translouca
Em roucos gemidos
Sublimados
De tanto prazer

CANDELABRO DA MINHA CAMINHADA

Não vou usar o rico traje
Rendado e bordado
Como se fosse noite de gala
Tampouco usar minhas jóias
Que reluzem como estrela do oriente
Não passarei um batom sequer!
Nem calçarei meus sapatinhos dourados
Quero andar nua
Despida de trajes, quer de rainha ou mendiga,
Tanto faz. Tudo é troça roca
Trapos de samambucaia!
Quero estar livre e limpa
Com minha alma reluzente.
Brilhará meu corpo nu
Candelabro da minha caminhada.

AMOR E PAZ

Nuvens de pensamentos
se formam pelo
quente vapor do desejo.
Mãos em movimento
rosa dos ventos
nos meus seios
Pernas em movimento
rosa de pétalas vermelhas
desabrocha
orvalhada pelo amor .
Serenada a noite pelos carinhos
encobertos pela lua
adormecem abraçados
à espera do doce amanhecer.

SENTIDOS

Meu corpo são sentidos
Que se afloram quando te vê
Salivo prazer...

Gosto das tuas mãos quentes e libertinas no meu corpo, da tua língua que tenta aplacar o fogo do meu sexo, da tua boca ávida sorvendo o meu mel sugando-me até as entranhas; das tuas palavras indecentes que me deixam em brasa; do nosso despudor nas brincadeiras e fantasias , do incender do sexo e do odor deste incensar; desta entrega sem reservas e desta sede ao pote da vida celebrando o amor; desta dança puro instinto que me leva ao ápice do prazer.

DANÇA PÚRPURA

Você chega
Faz da minha boca
A entrada
Do meu corpo
Morada.
Corpos
Ávidos
Sedentos
Procuram-se.
Desejo
Paixão
Amor
Ternura.
.Misturam-se.
A natureza dança
Sob sons
De gemidos
E sussurros
Purpúreos.
Flutuo
Entre espaços

SARINHA FREITAS – A bela e apaixonante poeta e escritora Sarinha Freitas edita, entre outros blogs, o Sentimentos-Sam e Desnuda, reunindo seus escritos e divulgando textos e poemas de muitos outros escritores. São espaços encantadores e imperdíveis. Confira.

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HOMENAGEM

                                

   
fotos: filho da Mariazita, no lançamento de AMOR NA GUERRA
Em cima a Mariazita faz a apreserntação, tendo à direita Andreia
pela editora, à esquerda o autor. Em baixo o autor e Mariazita trocam impressões.

HOMENAGEM



A vida é uma viagem
Viagem de muitos encontros
Alguns merecem que nos curvemos em homenagem
Encontros que acontecem parecem naturais
Aconteceu com Mariazita
Encontros interessantes, há mais
Porém devo o que vou relatar, a essa mulher, Ana Diniz
Depois… depois, os encontros vieram a tornar reais
Navegava nesta viagem e a Mariazita, esquecer jamais
Reaprendia a escrever, postar fotos não sabia fazer
Mariazita veio a saber porquês
Sabedora, coração bonito, entendeu e deu dicas para tecer
Cortês, pelo meu caso se interessou
Já tinha escrito por três vezes, com outra designação
O que passei a designar Amor na Guerra, versátil que sou
Por ser real, posso dizer: a Mariazita teve intervenção
Na maneira do desenrolar das cenas
Comentou e deixou verdadeira lição
Gratidão ficou àquela mecenas
Foi pela bondade dela, que atravessei, a sós, o Tejo
Na altura cometi essa loucura
Queria participar da sua alegria, o cumprimento dum desejo
O lançamento do seu livro, com agrado observei, essa ternura
O envolvimento de filhos e netos
Numa bonita moldura
E a Mariazita me apresentou em Lisboa
No lançamento do AMOR NA GUERRA, Não esperaria essa ventura
Filho e marido presentes também
O rebento fotografou
Incluiu o pai e a Mariazita mãe
Um gosto!
Gosto para mim também


Daniel Costa

FIGURA INESQUECÍVEL

               

FIGURA INESQUECÍVEL 

 - Livros, uma abertura ao mundo

Das figuras de vida, bem vistas as coisas, se as prioridades não fossem apenas as brotadas do acaso, o tio Miguel, de seu nome completo Miguel António Foz, teria de ser número um.
Da facto o seu pai, meu avô materno, já se chamava Miguel Foz.
Morreu precocemente, com vinte e seis anos, deixando quatro filhos, comprado alguns pedaços de terreno, consolidando o nome de Casal do Foz, onde terá mandado construir a primeira,  verdadeira, casa,de habitação.
O tio Miguel tinha casado com uma senhora viúva, proprietária de uma pensão, em todo um prédio, o mais alto de Peniche, bem no centro da então vila, com quatro andares, um espanto!...
A tia Elvira era um pouco mais velha e tinha já uma filha, a Glória em idade de namorar.
Em resultado, devido a uma destas patologias, pouco amigas de pessoas que ultrapassaram os "entas", o tio Miguel ficou viúvo.
Ainda tentou manter e gerir a pensão, no entanto a alma da mesma, a tia Elvira já não pertencia ao mundo dos vivos e o negócio acabou por se tornar inviável, até porque os familiares da defunta, ainda esta estava em câmara ardente, imediatamente desviaram muito recheio, como talheres, tachos e outros apetrechos necessários à laboração.
Em resultado, o viúvo viu-se na contingência de trespassar a pensão, onde morava e recolher os pertences pessoais. Deles constavam  e um baú recheado de livros, fechado a cadeado.
Todo este material esteve armazenado  no  sótão da casa dos meus pais, por cima, onde os filhos, rapazes, tinham o seu dormitório.
Acontecia, ter os meus doze anos e "devorava" todas leituras, que ia conseguindo. Tinha lido todas as revistas que o meu avô paterno tinha guardadas, livros que conseguia na paroquia, adequados à minha tenra idade, mas "queques" para o meu gosto, muito o jornal do Seminário de Coimbra, o "Amigo do Povo", que o pai recebia semanalmente, como assinante anual, a pagar por cada um desses períodos a quantia 5$00.
Este tinha rúbricas interessantes, como o "Tio Ambrósio e o Carlos ao Calor da Fogueira ou à Sombra do Castanheiro", consoante fosse Inverno ou Verão.
Vai daí um dia pensei, em como abrir o baú do tio.
Pela "surra", experimentei o cadeado com um arame e não é que estava ali um manancial de livros à minha disposição?
A partir daí, passei a ter bastante para ler, durante muito tempo, pois só dispunha de tempo livre à noite, de dia já trabalhava, a sério no campo de sol a sol.
Devorei avidamente, com a tenra idade de cerca de doze anos, livros como o grande volume de Ferreira de Castro, "A Volta a Mundo", "Gaibéus, "Marés" e "Avieiros", de Aves Redol, encadernados em conjunto, "Darwin seu Saber e seus Erros", ensaio sobre a sua teoria da evolução do homem.
Muitos outros interessantes, de que não me lembro nomes, mas sei o quanto ali bebi de cultura:
- Fiquei a saber algo, como sobre a lenta progressão rumo à canonização de um santo, um volume critico sobre as aparições de Fátima, outro sobre a Segunda Grande Guerra, Santa Filomena, um romance, género do Daniel Delfoi, publicada em capítulos num jornal, depois encadernado.
Recordo um policial, tendo como personagens dois irmãos; um polícia a investigar uma série de roubos; outro estabelecido com uma ourivesaria, a namorar uma tal Veronice, um pedaço de mulher, muito frívola, capaz de sugar rios de dinheiro. 
Este tinha chegado à necessidade de recorrer a assaltos, para poder satisfazer todos os caprichos da sua amada.
A amizade e os encontros com o irmão, de quem era muito amigo, passaram a servir para saber o andamento a investigação.
Rematava sempre, em fim de conversa: "Ourivesaria e Veronice são o meu mundo".
O epilogo acaba por ser dramático, o policial descobre que o gatuno, que procurava era o próprio irmão.
Contrariado, cumpriu o dever de o entregar a justiça.
O que aprendi terá resultado, porque muito naturalmente, passei a referir assuntos desconhecidos na minha aldeia.
As pessoas até acreditavam, porque saíam espontaneamente, porém não raro perguntavam:
- Onde aprendeste essas coisas rapaz?
- Ressaltava então, um olhar modesto, enquanto fugia a mais interrogativo?
Só muito mais tarde, com as aulas liceais, vieram muitas respostas que ficaram a pairar nas minhas cogitações.
Devo dizer que atribuo muito da minha formação a esta circunstância, a tal ponto que, como trabalhador rural, comecei por fazer os dois primeiros anos do liceu, em apenas num ano, a trabalhar para pagar a escola particular e mais dois cursos. Acabei por ser dispensado da oral.
Mesmo com esta bagagem de baú, olhando o passado, não devo continuar modesto, acima da média e exclamar:
- Um êxito!...
Evidentemente, se sempre gostei do tio Miguel, ele passou a ser um ídolo, tanto mais que adotei o seu nome como pseudónimo (registado), em Diretor executivo, da minha Revista FRANQUIA  e de bastantes escritos, dos anos setenta.
Homenageava o tio Miguel e o meu avô, com o mesmo nome, recordado, pelo filho mais velho, o tio José Miguel, que também apreciava, assim como a tia Lourdes, a cuja celebração de noventa anos tive o prazer de assistir.
Depois, com uma certa dose de emoção, poder realmente dizer:
- Presente!...
 
Daniel Costa

O QUE É UMA GALENA

                                     
Um modelo de galena

O QUE É UMA GALENA?
 
Muitos não saberão o que foi um aparelho radiofónico, que julgo ter sido pouco utilizado, o qual tomou o nome de GALENA.
Pensando no assunto e porque me coube o privilégio de usar um desses recetores, proporcionando-me um período de rara felicidade, nos meus tempos de juventude.
Tentarei descrever o aparelho:
- Verificando vários dicionários e enciclopédias, não encontrei este nome, senão mencionando um metal, como sendo um dos mais vulgares dos minerais de chumbo. Por outro lado, fazendo uma recolha, pude verificar serem os cristais de galena usados como detetores na T.S.F. Depois destas breves pesquisas, concluí que a denominação de GALENA para o citado aparelho emissor de ondas de rádio, vem do metal galena, visto ser um pedaço desse, o principal elemento funcional da citada peça radiofónica.
Nos tempos em que utilizei o tal aparelho, porque foi na década de cinquenta, só a Emissora Nacional possuía capacidade de difusão, para se fazer ouvir com tão rudimentares recursos, que dispensava energia elétrica.
Lembro contudo de ter conhecimento da Rádio Graça, a difundir da Rua da Verónica e dos Emissores Associados de Lisboa.
Haveria outros, ainda não existia TV em Portugal e a rádio sendo já uma "senhora", era uma coisa de real sedução.
Por isso a GALENA era uma verdadeira atração, até pelo gozo que proporcionava, uma vez que era um autêntico "faça você mesmo". ainda muito miúdo lidava bem com a atraente geringonça!
Primeiro estendia um longo fio desde o cocuruto de uma árvore até uma janela, que havia no sótão.
Antes da entrada, três elementos de louça ligados com a ponta do fio, evitavam qualquer contacto entre a parede e o mesmo, daí derivava a ligação para o interior. Depois uma extensão segura a uma pedra enterrada no chão, fazendo a necessária "terra" a completar o exterior.
Chegado o Verão, tornava-se necessário regar o chão, afim de ser criada a humidade necessária ao contato com as ondas de rádio.
Aquilo era de uma simplicidade que, por falta de uma parte dos elementos, começou por funcionar apenas com fios, com ligações aérea e terráquea, a uma ficha cada, uma das quais ligada a um pedacinho de galena, a outra estabelecia o contacto com a Emissora, com a busca de qualquer saliência a dar essa possibilidade.
Um auscultador apenas, fazia chegar a emissão ao tímpano respetivo, que por sua vez só era audível com aquele elemento pegado mesmo ao ouvido.
Mais tarde chegou o resto do material, que se resumia a quatro tabuinhas, com as quais foi montada uma caixa própria encimada com um pequeno rolo de vidro, onde era introduzido o tal pedaço de galena e uma espécie de monitor, composto por um fio de forma encaracolada.
Ficava mais prática, rodando a peça, a forma de entrar no som do posto da Emissora Nacional.
A mesma estrutura ficava a constituir o rudimentar rádio, já tinha acopladas as respetivas ligações referidas anteriormente.
Evidentemente que hoje, por puro entretenimento, ainda se podia montar um destes sistemas tanto mais que já cheguei a ver apresentado um exemplar num célebre programa de televisão, que dava pelo nome de 1-2-3.
Claro que para montar o esquema, seria necessário espaço abundante, fora de zonas citadinas, porque nestas é reduzido.
No entanto com a vivência dos dias de hoje não se pode pôr algo do género em equação, basta ver que a rádio de há cinco décadas, nem funcionava todo o dia, não havia ainda satélites, para se ter no ar todas as transmissões efetuadas atualmente, por tudo e por nada, em todo o mundo moderno.

Daniel Costa

A LIMPEZA DE SARRO NOS TONÉIS





LIMPEZA DO SARRO NOS TONÉIS
 O Avô fora ferreiro, ao mesmo tempo era um pequeno industrial de agricultura, incluindo culturas vinícolas.
Tinha adega com lagar, um grande tonel com aduelas de madeira, por já não lhe fazer falta vendeu o maior por oitocentos escudos, uma quantia elevadíssima para a época.
A grande vasilha de vinte pipas, de vinte e cinco almudes cada, sendo o almude uma unidade de vinte litros.
Saiu pela porta da adega em quatro partes, com as respetivas aduelas tiradas dos arcos e pregadas a vimes.
Tal era a sua grandeza!
Agora o avô, que ficara entrevado aos quarenta anos, foi delegando ocupações aos filhos o mais velho ficara com ofício de ferreiro, o a seguir, o meu pai o abegão (tratador e trabalhador com os bois) o seguinte também aprendeu o ofício, o quarto foi carpinteiro, o quinto trabalhador. Mais três raparigas, donas de casa.
Quando andava na escola havia a adega, lembro-me do grande tonel e da sua venda, mas ainda ficaram outros tonéis menores que eram cheios com a produção de uma das vinhas que ficara sempre para o avô cuidar do cultivo.
Produzia para venda e prover produtos para casa.
O lagar era alugado a quem o solicitasse, ao custo diário de um almude de vinho que também ali ficava armazenado.
A seu tempo, procedia à trasfega do vinho.
A borra que produzida, era retirada, vendida a um comerciante do ramo, que trazia sacos brancos, onde metia o produto para transformar, creio que em bagaceira.
Depois de vendido, o vinho e consequentemente esvaziados os tonéis, era necessário proceder à sua criteriosa limpeza, coisa de que o avô sempre fora exímio, pois disso dependia em muito a qualidade do sabor do produto.
Saia sempre um verdadeiro néctar, com influência no preço, que o teor do mesmo justificava.
Tempos diferentes!...
Começava por mandar raspar o interior dos toneis, afim de tirar todo o que chamava “sarro”: era ai que eu entrava depois de solicitado o meu serviço ao pai.
Entrava dentro do tonel, por uma abertura que havia em todas as unidades, com uma escotilha, aberta logo que vazios, em cuja podia ser aplicada uma torneira em cavidade própria, até então tapada por uma rolha de cortiça ou por meio de um torno de vime, metido num pequeno furo produzido para o efeito, por uma verruma, para provar ou medir a graduação do vinho.
Dentro do tonel, era para mim um novo mundo, uma interessante aventura assinalada com cânticos, que dentro da vasilha soavam de maneira diferentemente estranha e ampliada, que até o avô sempre sorridente e cheio de complacência, na sua inegável austeridade, devia gozar enquanto de fora ia comandando a operação, com as suas interjeições ternas de comando:
- Olha limpa bem por cima!... Já limpastes bem do lado direito!... E do esquerdo!... Agora raspa e limpa bem debaixo!...
Depois uma vassoura, para varrer tudo, para uma pá que o avô segurava de fora, depois deitava num saco, voltando com a mesma para encher de novo.
Tudo impecavelmente limpo, como era lei da casa.
O avô com contentamento dava, como prémio, uma moeda de cinquenta centavos.
Como tudo produzia dinheiro, dali por algum tempo passaria um comprador para o “sarro”, o mesmo era acastanhado e brilhante.
Julgo saber que dele se extraía um químico.

Daniel Costa

A MAGIA DOS BRINQUEDOS

A MAGIA DOS BRINQUEDOS



Devia ter apenas cinco anos de idade, quando numa última interação nas brincadeiras dos filhos, o meu pai construiu para mim um carrinho de bois de caniço.
Como magia, bastou para a minha aprendizagem, a ponto de em casa não mais terem faltado construções de brinquedos de caniço.
De facto estes brinquedos artesanais estavam, em exposição na escola primária que funcionava perto da minha casa.
Seria a professora que, achando naquelas peças algo do folclore local, tratou de promover a sua mostra dependurando, estrategicamente vários numa das paredes da sala de aula.
Possuí variados daqueles brinquedos, todos imaginados e executados por mim próprio.
Era assim uma aldeia do Oeste (Peniche) desse tempo, onde dominava um certo atraso e pobreza, em virtude de estar-se ainda a viver o fim da Segunda Guerra Mundial.
O açúcar ainda se adquiria por racionamento!
Ainda me acho capaz de indicar como se executavam os carrinhos de bois de caniço.
A ferramenta era apenas o que havia à mão, uma faca de cozinha, com o indispensável bico, com a mesma se faziam os respetivos cortes no caniço seco, consistiam no seguinte:
- Dois pedaços à medida compunham as partes laterais, um bastante maior fazia o centro da estrutura, enquanto em conjunto formava o cabeçalho (varal) do carro.
Nos dois pedaços iniciais, faziam-se buracos com o bico da mesma, de modo a que ficassem retangulares só do lado de dentro. No centro os furos eram executados dos dois lados.
Na mesma direção a meio, nos vértices, por debaixo dos dois primeiros pedaços, faziam-se furos mais pequenos de onde iam partir as estruturas para o rodado.
Posto isto, dum outro pedaço tiravam-se as chamadas travessas, que constavam de caniços rachados, tinham de encaixar bem em todos os buracos, ficando assim feita a estrutura do carrinho:
- Às travessas dava-se a função de, outra vez com bocados de caniço lascado, tamanho igual e entrelaçados, a construir o estrado.
A seguir dava-se a construção do inevitável rodado, ia-se aos furos que se tinham inserido noutro ângulo e com quatro pequenos pedaços, dois de cada lado, eram metidos outros tantos pequenos nacos mais finos, que teriam de ficar salientes.
As rodas já não eram de caniço, mas sim de madeira, tirada de carrinhos de linhas, que serviam para executar rendas de bilros de Peniche, atividade muito vulgar naquele tempo, nas tarefas das donas da casa do citado concelho.
Sempre a mesma faca, separava o interior dos citados, que imitavam muito bem as rodas, ligando-as depois com eixo feito também de caniço.
Desse modo, o brinquedo era uma verdadeira obra artesanal, enquanto naífe.
A vulgaridade da faina agrícola da época, com os carros movidos por juntas de bois, serviam de preciosos modelos, para fazer funcionar a imaginação de um pequeno construtor de brinquedos.
No que servia de cabeçalho do carrinho, podia construir-se outro furo na ponta final, para se introduzir um elemento móvel ali chamado chavelha.
A mesma em que se amarraria a canga que jungia os bois, no caso imitada por dois bocados, sempre de caniço, sendo o sítio das patas feito apenas com um corte diagonal.
Para imitar os chifres, dois furos nas pontas, onde se introduziam já aguçados, pedaços do mesmo material.
Com tudo pronto ainda se podiam, por meio de furos introduzir fueiros móveis, para tornar a imitação do brinquedo mais credível.
Depois entrei em nova fase e dos caniços, separava pedaços para fazer outros brinquedos, como assobios, pífaros, moinhos de vento, etc.
Com rachas, em pedaços com cerca de meio metro, eram feitas uma espécie de castanholas. Com batimentos secos, feitos com a parte anterior da mão, davam uma música, mesmo de caniço rachado.
Por fim já adolescente, sendo o meu pai pequeno lavrador, cultivando os seus pedaços de terra, levava tudo à moda dos ancestrais, ignorando alguma modernização, que seria conveniente introduzir.
Chegado o Outono o pai fazia também a sua água-pé.
Era um caso sério para a abrir.
A todos os argumentos, respondia que ainda não estava bem "cozida" (fervida), porque era uma bebida mais forte do que outras já provadas.
A partir disso era letra morta qualquer argumentação.
Inventei então um pequeno truque:
- Mais uma vez, um pedaço de caniço, com as zonas nodosas interiores obliteradas, por meio de um arame, formando como que uma palhinha com mais caudal que, metida na parte de cima do barril e chupada, sugava-se um verdadeiro "champanhe saloio", quiçá o melhor do mundo.
Foi a maneira de se poder fazer a prova, o pai nunca se apercebeu da descoberta do verdadeiro ovo de Colombo.
Isto sendo folclore local, também teria a ver com o facto daquela planta poácia, igual à cana, mas mais fina, existir em abundância naquela região à beira mar, onde se pode notar sempre uma brisa marinha, que obriga as terras de vinha, por exemplo, serem abrigadas por sebes de caniço seco, afim-de ser protegida a produção de uvas.
Tudo isto se passou numa fase de meninice, talvez precoce, na aldeia da Bufarda, no concelho de Peniche.
Asseguro que as minhas brincadeiras tinham sempre algo em comum com a realidade, que vivida então, com a maior seriedade deste mundo, como se não estivesse a viajar no tempo do faz de conta.


Daniel Costa