quarta-feira, 11 de março de 2015

CRUZAMENTO COM O CRIME

CRUZAMENTO COM O CRIME

Se a estrada Peniche – Lisboa visava o transporte do pescado para a capital, era mister que o produto chegasse também a outras zonas do pais e nada como o caminho-de-ferro, o transporte por excelência do princípio de século passado.
Na areal de Peniche, se bem me lembro, onde hoje se situa a zona portuária, pelo menos ainda nos anos cinquenta, era possível detectar linhas assentes, por onde havia de circular o comboio. Fariam parte de uma estrutura planeada para o efeito.
O projecto foi abortado e vários abegões (tratadores e trabalhadores com bois) do concelho, com os seus bois jungidos aos respectivos carros, continuaram ainda a fazer o transporte para a estação ferroviária de S. Mamede, Bombarral.
Do porto de Peniche a S. Mamede distarão cerca de quarenta quilómetros, percorridos em linha recta por entre declives vários, uma zona a que se dá o nome de Sezaredas, um comprido cerro onde abunda a pedra e muito mato.
Podemos calcular o quão era difícil a vida desses abegões, que tinham de se levantar de madrugado para tratar dos ruminantes. Porém o peixe, era mister chegar à estação para ser expedido para diversas zonas do país.
Se falo nisto é porque conheci alguns desses esforçados homens do transporte do pescado de Peniche, a quem procurava indagar pormenores.
Para o transportar de comboio, iam servir as vias férreas colocadas no areal, que tive oportunidade de ver várias vezes.
Na mesma época, o pastor de ovelhas, Francisco Caiado, a não regular bem da cabeça, cumpria serviço militar em Lisboa. A determinada altura veio à aldeia em gozo de férias. O transporte corrente, à época, era o comboio e a estação mais próximo da aldeia da Bufarda era a de S. Mamede distante dali, cerca de trinta quilómetros a corta mato.
Chegada a altura de se apresentar no quartel, meteu-se a caminho para a estação, invariavelmente, a de S. Mamede.
Naqueles tempos, os caminhos podiam ser perigosos, podia-se calcorrear os trinta quilómetros sem se avistar viva alma. No caso dos abegões, juntavam-se sempre vários que podiam partilhar ajudas, a dominar possíveis intempéries e outros perigos, numa assinalável entreajuda.
No caso, Francisco Caiado percorria o longo e perigoso caminho sozinho. Aconteceu que em determinada zona de matagal, saltaram-lhe dois meliantes ao caminho e apontaram para um caso macabro: metido mais dentro do mato estava um homem morto dependurado, este mesmo fardado estremeceu e disse mal à sua vida.
Encolhido, sem pinga de sangue, ouviu estes: vocemecê conhece aquele homem que está ali dependurado?
Não, apressou-se logo a dizer!
- Então siga o seu caminho, mas não diga a ninguém.
De imediato Francisco Calado desandou e saiu dali, acelerando o passo.

Daniel Costa

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