terça-feira, 8 de setembro de 2015

BOLECA COM OVO




Os meus avós paternos

BOLECA COM OVO
Tinha, precisamente, cinco anos e meio de idade, era Domingo de Páscoa, a minha mãe logo de manhã mandou-me a casa do avô buscar uma garrafa de vinagre.
O abastecimento de vinagre, lá em casa, era sempre da adega dos avós paternos, que mantinham um barril com o mesmo, feito da sua produção de vinho.
Tudo bem portanto!
Havia ainda dois tios solteiros, saudando-me com certa euforia disseram, como se isso aos meus olhitos de criança fosse alguma coisa de outro mundo:
- À tarde vêm cá todos, hoje é Domingo de Páscoa e a avô fez bolecas com ovo e vai dar uma a cada neto!...
 
- Resposta minha, com ar de irradiante felicidade:
- Não preciso, a mãe também cozeu ontem e fez uma boleca para cada filho!...
- Tios em uníssono, com ar pouco amigo:
- Ah… não precisas!...
- E, a avó está tão contente por ver e presentear o conjunto dos netos!...
 
- O ar de pura reprovação, e ensinou-me algo. Mais tarde, pensei que aconteceu uma humilhação, mais que inadequada para uma criança de tão tenra idade.
Aqueles meus tios não tiveram o mínimo de sensibilidade para sentir a criança de índole “fresca”, ao mesmo tempo humilde que eu era.
Na altura, nem conhecia a palava, mas senti-me humilhado, sobretudo com o tom de voz.
Humilhado a tal ponto que a mãe à tarde, muito procurou por mim mas em vão, já não me encontrou.
Até que resolveu ir a casa dos avós com os outros três filhos, sem mim o mais velho.
Segui a mãe à distância, sem ser visto. Não pude deixar de me comover, porque senti a grande preocupação da minha mãe.
Com o assunto arrumado, logo me instalei, tristonho, em casa.
Fazia parte da reunião, a professora, que vinda de Alcafache, a Dona Justina, era amiga da casa e consequentemente, considerada pelos avós.
É pelo facto dela lecionar ali naquele ano, que preciso exatamente a minha idade.
Quando equaciono o caso, verifico que os meus avós, nem sequer se dignaram entregar à mãe uma boleca, para mim, outro erro!
Passaram umas boas dezenas de anos e nunca esqueci o fato. Fixado na memória, jamais esquecerei o transe.
Não dei uma reposta correta, tanto mais que a educação austera, diria mais conventual paterna, não se coadunava, mas afinal eu era uma inocente criança e devia haver certo cuidado de aproveitar a oportunidade, tendente a um ensinamento prático, que decerto eu aceitaria de bom grado.
Adultos a humilhar traquinices de criança, a falar à mesma considero errado.
Um miúdo quer-se aberto, os adultos têm de ter  por força, a preparação para observar o pensamento delas e tentar corrigir sem humilhar.
Se uma criança diz não gosto de ti, não vamos responder a dizer:
 - Também não gosto, calha mesmo bem!
Porque não fazê-lo de outro modo?
Dizendo:
- Gostarei sempre de ti!...
Normalmente a criança olha, vê-se nela a sensação de um certo prazer, como quem diz - afinal sou estimada!
E dar prazer aos outros, sobretudo a crianças, é agradável!
O ensinamento, sem se ver, persistirá e ficará sempre no seu íntimo, como gratificante.
Naquele caso, a memória que guardo destes tios é a de que nunca os deixei de olhar de soslaio, quero dizer, de modo nada positivo.
 
Boleca com ovo, feita nos meus anos quarenta, com mais ou menos arte, era o nome dado na aldeia do meu nascimento a um tipo de pão branquinho, de farinha de trigo, mais pequeno cozido com um ou dois ovos, um dos modos, com que padrinhos, tios, avós ou pais distinguiam a sua petizada pela Páscoa.
Daniel Costa
 

 

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