terça-feira, 8 de setembro de 2015

FARICAR JOGOS DE MATRAQUILHOS




FABRICAR JOGOS DE MATRAQUILHOS
 


Nos anos cinquenta era recorrente, em qualquer tasca haver jogo de matraquilhos.
Na aldeia da onde nasci e vivia, a umas dezenas de quilómetros a norte de Lisboa, um desses exemplares criava verdadeiros cracks.
Ver jogos era o gozo da miudagem, a quem faltavam os cinquenta centavos para participar.
Incapaz de não fazer qualquer coisa a propósito, inventei produzir a minha mesa de jogo.
Se bem pensei, melhor o fiz:
- Construído de uma peça velha de madeira, que havia pelo quintal, saiu o tabuleiro.
A representação dos vinte e dois jogadores, mais os suplentes, foi feita de bocados de madeira escolhidos e serrados, nas medidas exactas em conformidade, de montanos (molhos de ramos de pinheiros) dos que a mãe comprava para aquecer o forno a fim de cozer o pão,
Esses pedaços, foram rapidamente "burilados", com uma faca para constituírem os bonecos, que foram pintados das cores do Sporting e do Benfica.
A bola era regulamentar, andava lá por casa.
Ainda nesse Domingo do acabamento, o jogo funcionou no quintal, à vista de todos, porque era uma das minhas facetas mostrar a obra que fazia, só por isso.
No entanto atraiu a garotada, que depressa queria também jogar.
Claro que o facto trouxe nova dimensão e nesse próprio dia atribui o preço de dez centavos por cada jogo, composto de nove vezes que a bola entrasse na baliza.
Estava criada uma maneira de arranjar uns trocos, a mesa era muito rudimentar para o meu gosto.
Então fabriquei outro jogo com a madeira de caixotes de sabão.
Para os bonecos, não foi necessário alterar a forma, as cores tinham de sair das mesmas latas de tintas, era incomportável comprar outras.
Saíram as do Vitória de Setúbal e do Lusitano de Évora a militarem então, com algum prestígio, na primeira divisão.
Branco para os calções, como os do Benfica, riscas verdes verticais.
Motivado, idealizei um terceiro jogo.
Desta vez, ainda com mais realismo, isto é:
- Já com todas as nove bolas, que ao entrar na baliza, encaminhavam-se para uma cavidade interna.
Saiam, para novo jogo por meio de um arame com um gancho numa das pontas entrando num furo. Dentro movimentava uma portinhola a fazer saírem as bolas.
Tinha entretanto, aprendido o princípio de ao meter a moeda saírem as bolas mecanicamente. Porém os meus rudimentares meios não davam para mais.
As equipas voltaram a ser, Sporting e Benfica.
Os varões eram já de caniço, porque deduzi que, afinal estava encontrado o melhor material, para o efeito.
Bonecos produzidos sempre da mesma maneira. O custo por jogo é que passou a vinte centavos.
O primeiro exemplar foi desactivado, enquanto simultaneamente ficaram a funcionar dois jogos.
Preços:
- Para todas as bolsas, um tostão e dois tostões.

Daniel Costa

Sem comentários: