terça-feira, 8 de setembro de 2015

MARCENARIA DE INVESTIGAÇÃO








Ainda se mantém estruturas de madeira que construí


MARCENARIA DE IMAGINAÇÃO
 
A construção de jogos de matraquilhos, já era o dar asas ao que julgo fértil imaginação. Sendo tranquilo, sempre fui e continuo a ser bastante irrequieto, mentalmente.
Já tinha acabado a era dos brinquedos de caniço. Era já um rapaz e como tal o pensamento tinha evoluído. O sonho centrava-se agora na construção de uma mesa-secretária.
Para quem tem muito pouca idade, creio que apenas doze anos não mais, sem outros conhecimento que não sejam os ditados pela observação. Mesmo com o óbice da falta de recursos, nada me fazia demover.
Recorri, de novo à madeira de caixotes se sabão, ainda a matéria acessível ao meu bolso, comprado num merceeiro meu vizinho.
E então lá iniciei a construção da minha secretária. Até aí tudo bem, mas depois faltava dinheiro para comprar as ferragens para duas portas, que projectara, para a parte inferior.
Tudo devia sair como eu desejava, havia de haver um modo de o conseguir! Então ao outro dia, a trabalhar de enxada no campo, ajudando o pai, sempre circunspecto, fui pensando o modo de resolver o imbróglio.
A certa altura achei; as portas abririam por meio de calhas de madeira, que arranjaria modo de introduzir.
Criei pois, essas, por onde as portas deslizavam maravilhosamente bem.
Como qualquer mestre, depois pensei que uma segunda versão sairia melhor, aquela deixou de me satisfazer.
Agora já precisava de uma gilete para fazer a barba. Devo dizer que, erradamente era assunto que não preocupava o pai, embora já usufruísse do meu trabalho, não só de ajuda nos seus bocados de terra, como até já a ganhar oito escudos de jorna, em dias vagos.
Porém, certo dia, troquei a secretária por uma gilete, com um primo mais velho. Eis-me pela primeira vez a rapar os pelos da cara, que estavam muito precocemente a aparecer.
E juntado o útil ao agradável, logo comecei a construir nova mesa-secretária.
O dito popular: “quando acabamos uma obra, é que estamos preparados para a iniciar”, estava a fazer sentido.
Retenho um aspecto muito pessoal: eu não tinha nascido mesmo, para trabalhar no campo, como tudo fazia prever!
Interessavam-me aspectos diferentes, os que vim a abraçar.
A Secretária, aproveitada por um irmão, ainda existiu bastantes anos, até à sua morte.
Depois o trabalhar madeira, de modo rudimentar e artesanal, seguiu sempre no meu espírito, visto que continuei com variadas construções naquele material.
Que me recorde: a seguir, construi para a minha mãe, um banco próprio para a almofada de fazer renda de bilros.
Depois um galinheiro e coelheira. A madeira foi da que se aproveitou da antiga e mais alguma comprada para lenha, donde foram escolhidos pedaços.
O pai que se alheara desfazia da minha capacidade de levar o projecto avante, apesar de se ter de rendido depois.
Manifestou-o quando a estrutura estava pronta. Curiosamente, a colocação do telhado estava a sair mal, ai o pai tomou a iniciativa de me ensinar, como o fazer bem.
Ainda nos anos setenta, construi todo o meu escritório de editor, na varanda à largura de todo o andar, que previamente mandara fechar com uma estrutura de alumínio e vidro.
Comprei a madeira, já nas medidas certas. A mesa foi uma bancada a meia largura, imediatamente atrás uma estante, outra num dos topos.
Mais caixas de madeira à medida de postais ilustrados, para guarda de variado material de filatelia ou outro que possuía e recebia, mormente para ilustração dos muitos artigos que publiquei.
Foi esse o meu habitat de editor e jornalista especializado em filatelia, durante vinte e cinco anos.
Na segunda década do século XXI, maior parte da estrutura ainda existe.
Daniel Costa

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