domingo, 15 de março de 2015

FOZ I


FOZ I


Quem vai de Lisboa rumo à cidade de Peniche, importante porto de pesca, pela estrada, cidade de Torres Vedras e vila da Lourinhã. Depois desta última, olhando bem, enquanto à direita se depara com uma paisagem campestre interessante, olhando à esquerda vislumbram-se lindas vistas marítimas.
Passando o cruzamento da Praia da Areia Branca, uma subida ininterrupta leva-nos ao Casal Foz. Imediatamente antes avistamos também o mar, a parecer um paraíso, cujo azul se torna infindo, confundindo-se com o do céu infinito; um encanto natural inenarrável.
Foi ali, que ainda no princípio do século XX, estando a construir-se a primeira estrada Peniche – Lisboa, decerto com o principal objectivo de fazer o escoamento do pescado, então abundante, para a capital.
Ali no princípio, da hoje designada recta com o nome do casal, o trabalhador que se deslocara da cidade da, também piscatória, Figueira da Foz, de apelido precisamente Foz, talvez, por ser um dos que compõe da cidade onde tinha nascido. Sabe-se que foi assim que foram constituídos bastantes nomes de pessoas.
Veio a estabelecer ali a sua morada, naturalmente numa casa rudimentar, que ele mesmo terá construído.
Não se pode saber, nada do seu casamento, visto não me chegarem dados que o permitam, visto que não se encontra qualquer ascendência no local nem nos próximos.
Porém, a fixação ali, deu origem ao topónimo Casal do Foz, agora simplificado depois sem a partícula “DO”.
É de crer ter contribuído para a fixação, haver próximo uma nascente aquífera à superfície, dado que a água é essencial á vida. A princípio seria, como que um regato, depois fixada em depósito por meio de um poço.
Assim nasceu o Casal Foz, já famoso em toda a zona.

Daniel Costa

CRUZAMENTO COM O CRIME

CRUZ DA LÉGUA
Santuário da Senhora dos Remédios
 
CRUZ DA LÉGUA

A cerca de mil metros do Casal Foz, seguindo sempre na mesma estrada para Peniche, encontramos o Alto Veríssimo. Em caminhos contíguos, de terra batida, virados ao mar, encontra-se um cruzamento, a que deram o nome de Cruz da Légua, tal como é dado a toda a zona cerealífera.
Conta a tradição que ali é meio caminho entro os Remédios, junto ao Cabo Carvoeiro, Peniche e Carvalhal, Bombarral. Na prática não é efectivamente, mas lendas são lendas.
Ali se encontraram dois peregrinos, não teriam destinos traçados, uma a mulher andou até aos Remédios e o que sei agora é que ali está santificada num altar, incrustado num banco de pedra com o nome de Senhora do Remédios. Ainda e sempre a tradição comunica-nos que a imagem terá crescido e com ela o próprio altar.
O outro peregrino era homem, a certo ponto, encontrou um outro homem a quem  pediu ajuda na sua caminhada. Esse homem acedeu transportando-o. Tendo perguntado onde queria ficar, obteve como resposta: “onde me tornar pesado, aí me deixarás”.
A imagem está numa igreja, junto ao palácio da quinta dos Loridos, Carvalhal, Bombarral, com a designação, Senhor Bom Jesus do Carvalhal.
Ambos os sítios, tornaram-se santuários de grande fama na região.
Por ocasião das festas populares de Verão, várias localidades, por devoção tradicional, iam aos locais com belíssimas delegações, com banda de música, organizar festas religiosas e profanas em, espaços próprios dos respectivos santuários, cujas imediações estão providas de camaratas para albergar os peregrinos.
Senhora dos Remedos, a cerca de dez quilómetros do Casal Foz, tem junto da igreja um grande terreiro, onde em tempos, cada Domingo de festa, havia delegações a organizar.
Um, três, sete e onze círios, etc. Era assim que se designavam as delegações. A maior parte levava banda de música, em carroças ou carros de bois engalanados.
À noite vinham rapazes jovens, de longe a pé a participar na festa tornada assim de arromba.
Senhor Bom Jesus do Carvalhal, a cerca de trinta quilómetros da aldeia da Bufarda de que continua a fazer parte o Casal Foz, para efeitos administrativos, festas mais modestas mas em certos Domingos, iam lá os círios fazer as suas.
O terreiro contíguo ao templo é menor, mas um parque de merendas com vegetação de arvoredo muito acolhedora e aprazível, faz parte do equipamento próprio.
Faço notar, o círio do lugar de Bolhos, mesma freguesia da Bufarda, passava e dava sempre a volta por esta localidade, trazendo uma criança vestida de anjo, numa das carroças engalanadas.
As portas da igreja local abriam-se de par em par, o que servia para o anjo, com um bonito lenço bater no peito, ia declamando uma canção religiosa, e a acenar para o interior, acentuando assim a passagem do círio no seu jeito de entidade peregrina.

Daniel Costa



sexta-feira, 13 de março de 2015

NOVIDADES EM FOTOS

Trabalho publicado na revista F. N. Filatelia e Numismática, de Dezembro de 1991, onde ao tempo figurava, Ficha Técnica, como Consultor. Daniel Costa.




quarta-feira, 11 de março de 2015

CRUZAMENTO COM O CRIME

CRUZAMENTO COM O CRIME

Se a estrada Peniche – Lisboa visava o transporte do pescado para a capital, era mister que o produto chegasse também a outras zonas do pais e nada como o caminho-de-ferro, o transporte por excelência do princípio de século passado.
Na areal de Peniche, se bem me lembro, onde hoje se situa a zona portuária, pelo menos ainda nos anos cinquenta, era possível detectar linhas assentes, por onde havia de circular o comboio. Fariam parte de uma estrutura planeada para o efeito.
O projecto foi abortado e vários abegões (tratadores e trabalhadores com bois) do concelho, com os seus bois jungidos aos respectivos carros, continuaram ainda a fazer o transporte para a estação ferroviária de S. Mamede, Bombarral.
Do porto de Peniche a S. Mamede distarão cerca de quarenta quilómetros, percorridos em linha recta por entre declives vários, uma zona a que se dá o nome de Sezaredas, um comprido cerro onde abunda a pedra e muito mato.
Podemos calcular o quão era difícil a vida desses abegões, que tinham de se levantar de madrugado para tratar dos ruminantes. Porém o peixe, era mister chegar à estação para ser expedido para diversas zonas do país.
Se falo nisto é porque conheci alguns desses esforçados homens do transporte do pescado de Peniche, a quem procurava indagar pormenores.
Para o transportar de comboio, iam servir as vias férreas colocadas no areal, que tive oportunidade de ver várias vezes.
Na mesma época, o pastor de ovelhas, Francisco Caiado, a não regular bem da cabeça, cumpria serviço militar em Lisboa. A determinada altura veio à aldeia em gozo de férias. O transporte corrente, à época, era o comboio e a estação mais próximo da aldeia da Bufarda era a de S. Mamede distante dali, cerca de trinta quilómetros a corta mato.
Chegada a altura de se apresentar no quartel, meteu-se a caminho para a estação, invariavelmente, a de S. Mamede.
Naqueles tempos, os caminhos podiam ser perigosos, podia-se calcorrear os trinta quilómetros sem se avistar viva alma. No caso dos abegões, juntavam-se sempre vários que podiam partilhar ajudas, a dominar possíveis intempéries e outros perigos, numa assinalável entreajuda.
No caso, Francisco Caiado percorria o longo e perigoso caminho sozinho. Aconteceu que em determinada zona de matagal, saltaram-lhe dois meliantes ao caminho e apontaram para um caso macabro: metido mais dentro do mato estava um homem morto dependurado, este mesmo fardado estremeceu e disse mal à sua vida.
Encolhido, sem pinga de sangue, ouviu estes: vocemecê conhece aquele homem que está ali dependurado?
Não, apressou-se logo a dizer!
- Então siga o seu caminho, mas não diga a ninguém.
De imediato Francisco Calado desandou e saiu dali, acelerando o passo.

Daniel Costa

segunda-feira, 9 de março de 2015

MIGUEL FOZ

 
MIGUEL FOZ
O homem aqui designado por Foz I, deixou três filhos. Neste capítulo vou referir-me a um apenas, de seu nome Miguel Cordeiro Foz. Foi ele quem consolidou o nome do Casal Foz, porquanto mandou erigir ali a primeira vivenda, casa de campo, ajardinada na frente, junto à estrada que vai de Lisboa, à cidade concelhia de Peniche.
Do mesmo lado um portão dava acesso a um quintal, com todos os apetrechos da vida campestre, estábulos para animais domésticos, uma pequena adega, arrecadação para a sua lancha de pescador.
Visto que, o incansavél Miguel Foz, aliou a pesca sazonal, à sua vida do campo.
Recordo também a única palmeira do sítio, que embelezava o espaço.
Do primitivo Casal Foz, ficou a toponímia, o sítio virou estância de férias, mesmo a cerca de três quilómetros do mar, com este à vista, uma vista cristalina de sonho e beleza.
Os filhos tinham respectivamente, os nomes de: José Miguel, Maria de Lourdes, Maria Madalena e Miguel António Foz. Nos filhos, prevaleceu o domínio do nome Miguel.
José Miguel um dia convidou-me a beber uma tigelinha de água pé, na sua adega, a que fora de seu pai. A ideia seria falar-me dele. Soube então que dos vinte e dois netos, apena um era tal qual, no dinamismo da maneira de ser e até na altura, o único homem da família  de baixa estatura.
Escusado será dizer que fiquei esclarecido sobre muitas questões que se me apresentavam.
O neto mais velho, chamou-se Miguel Ângelo Cordeiro.
O sobrenome Foz, segundo creio, está quase, senão mesmo extinto, o que é uma pena visto a tradição.
De notar que a sua filha Madalena, tendo dado sempre Cordeiro, sobrenome do pai, sempre desconfiou que no registo estava omisso. Já depois dos setenta anos, apurou junto do registo civil. Estava de facto, de imediato tratou de o pôr na devida ordem, pois se era sobrenome do pai!...  
Miguel casara com uma esbelta mulher, do concelho da cidade de Torres Vedras, aldeia de Sobreiro Curvo, que de repente se viu a braços com a criação de quatro filhos ainda bebés.
Como mulher inteligente que era, Jesuina, de seu nome, depressa tomou conta de tudo, passando ela a ser o "homem" da casa, de que soube tomar as rédeas do amanho das terras.
Muitas vezes me questionei: porquê Jesuina, se mais ninguém conhecia ali mulher com tal nome? Até que passei umas férias, na estância aquífera e balnear do Vimieiro, perto da aldeia do seu nascimento, onde o nome é vulgar e fez-se-me luz.
O clã continua, embora em facetas mais modernas, obviamente. Não havendo dúvidas os genes de capacidade são altos, como se pode ainda aferir, pela geração de bisnetos, que mostra capacidade bastante elevada.
 
Daniel Costa