sábado, 30 de janeiro de 2010

Mundo e Vida

FIGURA INESQUECÍVEL - livros, uma abertura ao mundo

Das figuras de vida, bem vistas as coisas, se as prioridades não fossem apenas brotadas do acaso, o tio Miguel, de seu nome completo Miguel António Foz teria de ser número um.
Da facto o seu pai, meu avô materno, já se chamava Miguel Foz, morreu precocemente, com vinte e seis anos, deixando quatro filhos, comprado alguns pedaços de terreno e o nome de Casal do Foz, onde terá mandado construir a primeira casa local de habitação.
O tio Miguel tinha casado com uma senhora viúva, propretária de uma pensão, em todo um prédo, o mais alto da cidade Peniche, bem no centro da então vila, com quatro andares, um espanto!...
A tia Elvira era um pouco mais velha e tinha já uma filha, a Glória em idade de namorar.
Em resultado, devido a uma destas patologias, pouco amigas de pessoas que ultrapassaram os "entas", o tio Miguel ficou viúvo.
Ainda tentou manter e gerir a pensão, no entanto a alma da mesma, a tia Elvira já não pertencia ao mundo dos vivos e o negócio acabou por se tornar inviável, até porque os familiares da defunta, ainda esta estava em câmara ardente, imediatamente desviaram muito recheio, como talheres, tachos e outros apetrechos necessários à laboração.
Em resultado o viúvo, viu-se na contingência de trespassar a pensão, onde morava e recolher os pertences pessoais. Deles constavam um receptor de rádio Galena e um baú recheado de livros, fechado a cadeado.
Todo este material esteve armazenado no sótão da casa dos meus pais, onde os filhos rapazes tinham o seu dormitório.
Acontecia, ter os meus doze anos e "devorava" todas leituras, que ia conseguindo. Tinha lido todas as revistas que o meu avô paterno tinha guardadas, livros que conseguia na paroquia, adequados à minha tenra idade, mas "queques" para o meu gosto, muito o jornal do Seminário de Coimbra, o "Amigo do Povo", que o pai recebia semalmente, como assinante anual, a pagar por cada um desses períodos a quantia 5$00. Esse tinha rúbricas interessantes, como o "Tio Ambróso e o Carlos ao Calor da Fogueira ou à Sombra do Castanheiro", consoante fosse Inverno ou Verão.
Daí um dia pensei, em como abrir o baú do tio. Pela "surra", experimentei o cadeado com um arame e não é que estava ali um manancial de livros à disposição?
A partir dessa altura passei a ter bastante para ler, durante muito tempo, pois só dispunha de tempo à noite, de dia já trabalhava, a sério no campo de sol a sol.
Devorei ávidamente, com a tenra idade de doze anos, livros como o grande volume de Ferreira de Castro, "A Volta a Mundo", "Gaibéus, "Marés" e "Avieiros", de Aves Redol, encadernados em conjunto, "Darwin seu Saber e seus Erros", ensaio sobre a sua teoria da evolução do homem.
Muitos outros interessantes, de que não me lembro nomes, mas sei o quanto ali bebi de cultura.
Fiquei a saber algo sobre a lenta progressão rumo à canonização de santo, mais um livro critico sobre as aparições de Fátima, outro sobre a Segunda Grande Guerra, Santa Filomena, um romance, género de Daniel Delfoi, publicada em capitulos num jornal, depois encadernados.
Um policial com a personagem de uma mulher muito frívola, capaz de sugar rios de dinheiro, este tinha chegado à contigência de recorrer a assaltos, para poder satisfazer todos os caprichos da sua amada.
A amizade e os encontros com o irmão, de quem era muito amigo, no policial, passaram a servir para saber o andamento a investigação. Rematava sempre, em fim de conversa: "Ourivesaria e Veronice são o meu mundo".
O epílogo acaba por ser dramático, o policial descobre que o gatuno que procurava era o próprio irmão. Contrariado, mas cumpriu o dever de o entregar a justiça.
A aprendidagem terá resultado, porque naturalmente, passei a referir assuntos desconhecidos na minha aldeia natal Bufarda. As pessoas até acreditavam, porque saíam espontâneamente, porém não raro, perguntavam: Onde aprendeste essas coisas rapaz?
Ressaltava então, um olhar modesto, enquanto fugia a mais interrogativo?
Só muito mais tarde, com as aulas liceais, vieram muitas respostas que ficaram a pairar nas minhas cogitações.
Devo dizer que atribuo muito da minha formação a esta circunstâcia, a tal ponto que, como trabalhador rural, comecei por fazer os dois primeiros anos do liceu, em apenas num ano, a trabalhar para pagar a escola particular e mais dois cursos, acabei por ser dispensado da oral.
Mesmo com esta bagagem de baú, olhando o passado, não devo continuar modesto, acima da média e exclamar:
- Um êxito!...
Evidentemente, se sempre gostei do tio Miguel, ele passou a ser um ídolo, tanto mais que adoptei o seu nome como pseudónimo (registado), em Director executivo, da minha Revista FRANQUIA e de bastantes escritos dos anos setenta.
Homenageava o tio Miguel e o meu avô, com o mesmo nome, recordado, pelo filho mais velho, o tio José Miguel, que também apreciava, assim como a tia Lourdes, a cuja celebração de noventa anos tive o prazer de assistir.
Depois, com uma certa dose de emoção, poder realmente dizer: presente!..

Daniel Costa

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

mundo e vida





LIMPEZA DO SARRO NOS TONÉIS

O Avô fora ferreiro, ao mesmo tempo era um pequeno industrial de agricultura, incluindo culturas vinícolas. Tinha adega com lagar, um grande tonel com aduelas de madeira, por já não lhe fazer falta vendeu o maior por oitocentos escudos, uma quantia elevadíssima para a época.
A grande vasilha de vinte pipas, de vinte e cinco almudes cada, sendo o almude uma unidade de vinte litros. Saiu pela porta da adega em quatro partes, com as respectivas aduelas tiradas dos arcos e pregadas a vimes. Tal era a sua grandeza!
Agora o avô, que ficara entrevado aos quarenta anos, foi delegando ocupações aos filhos o mais velho ficara com ofício de ferreiro, o a seguir, o meu pai o abegão (tratador e trabalhador com os bois) o seguinte também aprendeu o ofício, o quarto foi carpinteiro, o quinto trabalhador. Mais três raparigas, donas de casa.
Quando andava na escola havia a adega, lembro-me do grande tonel e da sua venda, mas ainda ficaram outros tonéis menores que eram cheios com a produção de uma das vinhas que ficara sempre para o avô cuidar do cultivo. Produzia para venda e prover produtos para casa.
O lagar era alugado a quem o solicitasse, ao custo diário de um almude de vinho que também ali ficava armazenado.
A seu tempo, procedia à trasfega do vinho. A borra que produzida, era retirada, vendida a um comerciante do ramo, que trazia sacos brancos, onde metia o produto para transformar, creio que em bagaceira.
Depois de vendido, o vinho e consequentemente esvaziados os tonéis, era necessário proceder à sua criteriosa limpeza, coisa de que o avô sempre fora exímio, pois disso dependia em muito a qualidade do sabor do produto. Saia sempre um verdadeiro néctar, com influência no preço, que o teor do mesmo justificava.
Tempos diferentes!...
Começava por mandar raspar o interior da madeira, afim de tirar todo o que chamava “sarro”: era ai que eu entrava depois de solicitado o meu serviço ao pai.
Entrava dentro do tonel, por uma abertura que havia em todas as unidades, em cuja podia ser aplicada uma torneira em cavidade própria, até então tapada por uma rolha de cortiça ou por meio de um torno de vime, metido num pequeno furo produzido para o efeito, por uma verruma, para provar ou medir a graduação do vinho.
Dentro do tonel, para mim um novo mundo, uma interessante aventura assinalada com cânticos, que dentro da vasilha soavam de maneira diferentemente estranha e ampliada, que até o avô sempre sorridente e cheio de complacência, na sua inegável austeridade, devia gozar enquanto de fora ia comandando a operação, com as suas interjeições ternas de comando:
- Olha limpa bem por cima!... Já limpastes bem do lado direito!... E do esquerdo!... Agora raspa e limpa bem debaixo!...
Depois uma vassoura, para varrer tudo, para uma pá que o avô segurava de fora, depois deitava num saco, voltando com a mesma para encher de novo.
Tudo impecavelmente limpo, como era lei da casa. O avô com contentamento dava, como prémio, uma moeda de cinquenta centavos.
Como tudo produzia dinheiro, dali por algum tempo passaria um comprador para o “sarro”, o mesmo era acastanhado e brilhante.
Julgo saber que dele se extraía um químico.


Daniel Costa

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Mundo e Vida

MIGUEL DE OLIVEIRA
RETALHOS DE UMA VIDA DEDICADA À MÚSICA
ENSAIO DE BIOGRAFIA


Da autoria de Fernando Prego, editado pelo Cineclube de Monção, no passado mês de Agosto, mais precisamente a 20 (2009), uma interessante biografia do Maestro Miguel de Oliveira, que regeu a Banda daquela vila do Alto Minho.
O autor, de quem recebi um exemplar do livro, nele mostrou a sua minuciosa pesquisa, das actividades do Maestro que acabou os seus dia em Monção.
Mostra-o como figura de relevo que foi da cultura musical do nosso país.
O livro, em forma de ensaio, consta de 140 páginas, do formato 19,5 X 23 cm, é bem uma importante resenha da vida e enorme actividade musical de Miguel de Oliveira.
Recorro aos dois últimos parágrafos do autor, em nota a abrir:

"Miguel de Oliveira de Oliveira foi um homem de sonhos, um homem de causas, um homem solidário. Um homem bom: um Homem.
E, sendo assim, aliado a tudo isto, foi ainda um grande artista. Um Artista."

Percorrendo todo o livro, vale a pena ver seu currículo musical, que se inicia aos 16 anos como militar incorporado em 1935 “no Regimento de Sapadores de Caminho Ferro”.
Em 1938, já na Guarda Nacional Republicana, é “Promovido a 2º. Sargento músico no instrumento “Bombardino”.
Composto de bastantes fotos, recortes de jornais, cartazes, programas, etc. que marcam momentos importantes da sua brilhante actividade, musical e cultural.
Terminada a vida militar, Miguel de Oliveira, além de outras actividades, veio a dirigir em Lisboa e Porto, teatro musicado, nqual "Dirigiu em Lisboa e Porto teatro musicado, no qual  participava
como autor.
“Dirigiu a orquestra Politeama do saudoso “Comboio das seis e meia”, tendo colaborado com actores como Vasco Santana, João Vilarett e Costinha.
Dos espectáculos da sua responsabilidade, fizeram parte artistas como Amália Rodrigues, Maria de Lourdes Resende, Carlos Coelho, Hermínia Silva, etc.”


Com tony de Matos

“O Comboio das seis e meia”, foi um espectáculo de variedades que o Teatro Politeama, exibiu durante anos, sempre com grande êxito, para que muito contribuiu o maestro.


Com Amália Rodrigues

Um dos locutores, Artur Agostinho dedicou-lhe um depoimento, cujo final reproduzo:


Bem hajas, meu caro Miguel, pelos bons momentos de amizade de amizade e alegria que vivemos juntos, fazendo o trabalho de que mais gostávamos e sobretudo pela camaradagem e lealdade que sempre que sempre foi uma das tuas imagens de marca.
Posso afirmar que, profissionalmente, o Miguel era, alem de um homem de bem – sensível e solidário – um músico exemplar, competente e talentoso, e sempre cordial e paciente com os artistas que “embarcavam” todas as semanas no “Comboio” que partia da “gare” do Teatro Politeama, sempre sem acidentes de percurso.

Foram tempos de que muitas vezes recordo com muita saudade, em especial do meu amigo Miguel de Oliveira – o inigualável “maquinista” musical daquele comboio de sonho.
Lisboa, Junho de 2009
Artur Agostinho

Daniel Costa

sábado, 9 de janeiro de 2010

Mundo e Vida


SESSÃO DE FADOS

NO CENTRO COMERCIAL NEVADA

 

O Centro Comercial Nevada, em de Benfica, Lisboa, quase em frente da bicentenária igreja matriz e ponto de referência da freguesia, não sendo de grande dimensão, mas bem localizado, conta várias iniciativas ao longo do ano, que vão atraindo visitantes.
Foi assim, que uns dias antes do Natal, a Relações Públicas do centro, Ana Paula Fernandes, organizou e dirigiu superiormente, no átrio do piso inferior, uma interessante sessão de Fado amador.
Como cultor da canção tipicamente lisboeta, que é o fado, estive presente.




 



A veia jornalística veio ao cimo e logo tratei de tomar algumas notas, como não era portador de máquina fotográfica, nesse aspecto, solicitei ajuda à Relações Públicas, que amavelmente, se prontificou a enviar-me fotos.
Sendo a freguesia de Benfica uma das mais populosas do país, creio que estas iniciativas, ainda que dimensões locais, de âmbito cultural devem ser relevadas.
Abrilhantaram a sessão, a fadista Vanessa Fernandes, de excelente voz, que fez ecoar no espaço do átrio, embora este não disponha de condições acústicas, para eventos desta natureza.
À guitarra, José Manuel de Castro, que dedilhando, cantou e encantou, a seu lado à viola Vital da Assunção, que se expressou também cantando, embora numa voz mais arrastada.
Depois do intervalo actuou o acordeonista, Joaquim Rodrigues, uma presença interessante que não destoou.
Foi em suma um interessante fim de tarde fadista a fazer lembrar, segundo rezam os anais, os retiros de Benfica de outras eras.

Daniel Costa
Fotos: Ana Paula Fernandes

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

mundo e vida





JUSTIÇA POPULAR
CONTO





Em terras do Oeste, num casebre no meio do vasto campo de cultivo designado de Vale da Serra vivia um viúvo acompanhado da filha, diziam as más línguas estarem amancebados, o que a ser assim aquele modo de vida um verdadeiro incesto.
Um negociante e comerciante estabelecido, com fama de se servir da lojeca, para sede dos seus negócios menos ortodoxos, um dos quais se baseou em petróleo, ali ia tratava das suas negociatas de conveniência.
Estava a viver-se os efeitos da Segunda Grande Guerra, ainda a devastar a Europa a fazer-se sentir um pouco por todo o mundo, era tempo de racionamento, umas gotas do combustível destinado à iluminação, à mistura com água, fazendo uma grande mancha no chão térreo do logradouro, uma demonstração da sua esperteza para a fraude.
Chamou a autoridade e fazendo crer que, por pouca sorte, se entornara todo o bidão. Como poderia atender os clientes, que acorriam ali pontual e mensalmente a apresentar as suas senhas de racionamento?
Pouco tempo depois, foi reposto o petróleo e já tendo atendido todos os fregueses, vendeu-o a alto preço na candonga, um rentável mercado paralelo.
Uma fraude, que o estado de alerta de guerra, com o consequente racionamento de muitos bens podia proporcionar.
É apenas um exemplo de como e senhor Viriato atingiu um certo patamar da riqueza, que passou a exibir.
Começou por mandar construir estabelecimento próprio e alargar os seus interesses de negócios. No mesmo prédio, edificou um andar superior onde instalou a habitação de família.
Uma criada, que ao tempo se designava genericamente de “sopeira”, enfatizando o estatuto de vida faustosa que atingira.
Junto á casa tinha o seu armazém para guardar mercadorias, havia arrecadações para os produtos domésticos. Instalara ali também o aposento da criada.
Em determinada madrugada o Sem Tenças que tinha criado uma junta de vacas de que era o abegão.
Nessa qualidade e porque fazia com elas os dias de jeira de sol a sol, a necessidade de proceder à alimentação dos ruminantes, horas antes do nascimento do astro rei que dá luz ao mundo. Ao ir ao poço comunitário buscar água para fazer a mistura da ração, ouviu um ruído estranho, no escuro pareceu-lhe ter avistado um vulto. A seguir este desapareceu, deixando-o descansado.
Passado algum tempo voltou a buscar água – o mesmo ruído. Sempre resoluto, mas assaltado por uma certa dose de medo, encostou-se a um muro, para poder observar sem ser visto.
O que observou levou-o a acordar e chamar o amigo Esquim, também rapaz novo e possante, como ele, ambos ao verem o vulto entrar nas instalações do Viriato, ficaram sem dúvidas tratava-se de um ladrão.
Nisto passaram a actuar, acabaram por concluir tratar-se do Carocho, pai da citada criada o que lhe dava um certo conhecimento da casa para se “abastecer” ali dos víveres armazenados, com certo à vontade.
Em breve chegara toda a população da aldeia, com a sua solidariedade, o Sem Tenças, com jeito para a investigação, tratou de saber tudo.
O Carocho encurralado não tinha outra alternativa que não fosse revelar. Inteirou-se de que era certa a primeira visão. O “rato”ao regressar a casa verificara ter-se esquecido de algo.
Actuando como se estivesse no seu mundo, voltou ao local do crime. Aquela jornada destinava-se apenas ao abastecimento de toucinho.
Depois entraram elementos da multidão, a curiosidade pelo modo de operar tinha de ser satisfeita e a cada passo da respectiva narração malhavam no lombo do Carocho mais uma paulada.
Uma minúcia escabrosa a ser sublinhada com “mimos” verbais e a incansável tortura da acção do usual marmeleiro iam ditando as leis.
Rompia o dia, todo o mundo iria trabalhar para os campos, lá deixaram o homem ir embora a arrastar-se, mas em paz de mãos a abanar de vazias.
Ninguém mais falou do assunto, não foi necessário, trabalhou a instituição justiça popular.




Daniel Costa

domingo, 3 de janeiro de 2010

Mundo e Vida



QUARTEL EM FARO

fim de semana de boleia

Estávamos em Novembro de 1961, o Esquadrão 297, depois de uma inversão deixara de pertencer ao Batalhão de Cavalaria 345 sob o comando do Tenente-Coronel António de Spínola. Recebera uma ordem repentina para, de Estremoz rumar a Sul, onde indo substituir um outro Esquadrão de Cavalaria que ali estava adido.
Substitua-o, após justa reivindicação do seu comandante.
Lá se fora o gozo de licença de embarque para o Ultramar!...
A posição era a de adido, no quartel mais a Sul, na situação de esperar vez de seguir. Isto dera-se no princípio de Outubro
Naquele tempo, Faro ficava muito mais longe da Bufarda, no concelho de Peniche, o dinheiro não fluía como actualmente, o que a tropa pagava era igual a quase nada, o que os paizinhos despendiam, tinha por força de ser muito bem administrado.
A nostalgia apoderava-se de qualquer rapaz sensível de 21 anos, que sentia necessidade de contar algumas incidências e aventuras, do seu dia a dia, aos país e sobretudo aos amigos, numa paragem tão longínqua e diferente, para a época.
Recurso:
- Empreender uma viagem de boleia. Só podia haver um fim-de-semana, visto que aguardando-se embarque, como tinha rebentado a escaramuça em Angola, ao mesmo tempo entrava-se em serviço de prevenção. De facto estávamos á vista da tomada definitiva da Índia Portuguesa, pela União Indiana e do assalto ao quartel de Beja, factos ocorridos durante as festas de Natal desse ano.
Equacionados os prós e os contras, a viagem diga-se odisseia devia de ser empreendida na sexta à tardinha, com uma dispensa de fim-de-semana, ainda que noite fora, um soldado de Cavalaria jamais teria receios, até havia a máxima: "Pá desenrasca-te que és de cavalaria"!...
Com um colega, um grandalhão da zona de Coimbra, demos início á grande aventura, caminhámos até à saída de Faro, logo aí apanhámos boleia, sorte a do meu colega, esqueceu solidariedade e apanhou um condutor com uma furgoneta, que acabaria a viagem mesmo onde o este se dirigia, segui também até um cruzamento e fiquei só.
Noite serrada, acabou por passar uma boa alma, a conduzir outra furgoneta, levava-me até Beja, aproveitei e passando a Ervidel saiu a tomar uma bebida e descansar um pouco, convidou-me a beber com ele. Aceitei de bom grado e seguimos na conversa até junto da estação ferroviária.
De novo fiquei a falar sozinho, mais a racionar com os meus botões: Decidi esperar pelo comboio-correio, apanhei muito frio na estação, enquanto esperava o transporte para Lisboa, onde do Barreiro, outra cidade que nunca vira, fui transportado por barco.
Cheguei à estação Sul e Sueste, segui apeado até à Praça da Figueira, onde apanhei o Metro e no Campo Grande mudei para um Eléctrico até ao Lumiar, ainda os assentos destes eram de palhinha.
Depois fui andando até que, um pouco exausto, deitei-me e dormi na valeta uma pequena soneca, tal como um lorde!...

Ao acordar, decidi-me por tentar de novo a boleia, o que aconteceu: Apanhei quem me transportasse até à Dagorda, Óbidos, já num mundo conhecido.
Daí uma carroça, com um vendedor que se dirigia à sua banca no mercado de Peniche, transportou-me até ao sair da Atouguia da Baleia, mais propriamente dito até à Sancheira, um cruzamento de estradas a virar, à direita para aquela vila, à esquerda para a Bufarda, onde cheguei, de mota, ao nascer do dia.
Muito podia sofrer um militar daqueles tempos!...
Logo ao outro dia de manhã, voltei a partir para o "progenitor" Regimento de Infantaria 4 de Faro. Como já não estava previsto o regresso de boleia, recolhera os horários adequados dos transportes, para poder chegar, sem sobressaltos, ao obrigatório recolher da meia-noite de Domingo.
O horário de recolher foi cumprido; a experiência tornar-se-ia interessante. Reparei que utilizei muitos tipos de transporte, alguns só conhecia de ouvir mencioná-los, caso do Metro e carro Eléctrico.
Muito mais tarde fiquei a saber que de Faro para Lisboa nunca devia passar por Beja, teria de procurar transportes, mais para litoral, mas!...


Daniel Costa