domingo, 3 de janeiro de 2010

Mundo e Vida



QUARTEL EM FARO

fim de semana de boleia

Estávamos em Novembro de 1961, o Esquadrão 297, depois de uma inversão deixara de pertencer ao Batalhão de Cavalaria 345 sob o comando do Tenente-Coronel António de Spínola. Recebera uma ordem repentina para, de Estremoz rumar a Sul, onde indo substituir um outro Esquadrão de Cavalaria que ali estava adido.
Substitua-o, após justa reivindicação do seu comandante.
Lá se fora o gozo de licença de embarque para o Ultramar!...
A posição era a de adido, no quartel mais a Sul, na situação de esperar vez de seguir. Isto dera-se no princípio de Outubro
Naquele tempo, Faro ficava muito mais longe da Bufarda, no concelho de Peniche, o dinheiro não fluía como actualmente, o que a tropa pagava era igual a quase nada, o que os paizinhos despendiam, tinha por força de ser muito bem administrado.
A nostalgia apoderava-se de qualquer rapaz sensível de 21 anos, que sentia necessidade de contar algumas incidências e aventuras, do seu dia a dia, aos país e sobretudo aos amigos, numa paragem tão longínqua e diferente, para a época.
Recurso:
- Empreender uma viagem de boleia. Só podia haver um fim-de-semana, visto que aguardando-se embarque, como tinha rebentado a escaramuça em Angola, ao mesmo tempo entrava-se em serviço de prevenção. De facto estávamos á vista da tomada definitiva da Índia Portuguesa, pela União Indiana e do assalto ao quartel de Beja, factos ocorridos durante as festas de Natal desse ano.
Equacionados os prós e os contras, a viagem diga-se odisseia devia de ser empreendida na sexta à tardinha, com uma dispensa de fim-de-semana, ainda que noite fora, um soldado de Cavalaria jamais teria receios, até havia a máxima: "Pá desenrasca-te que és de cavalaria"!...
Com um colega, um grandalhão da zona de Coimbra, demos início á grande aventura, caminhámos até à saída de Faro, logo aí apanhámos boleia, sorte a do meu colega, esqueceu solidariedade e apanhou um condutor com uma furgoneta, que acabaria a viagem mesmo onde o este se dirigia, segui também até um cruzamento e fiquei só.
Noite serrada, acabou por passar uma boa alma, a conduzir outra furgoneta, levava-me até Beja, aproveitei e passando a Ervidel saiu a tomar uma bebida e descansar um pouco, convidou-me a beber com ele. Aceitei de bom grado e seguimos na conversa até junto da estação ferroviária.
De novo fiquei a falar sozinho, mais a racionar com os meus botões: Decidi esperar pelo comboio-correio, apanhei muito frio na estação, enquanto esperava o transporte para Lisboa, onde do Barreiro, outra cidade que nunca vira, fui transportado por barco.
Cheguei à estação Sul e Sueste, segui apeado até à Praça da Figueira, onde apanhei o Metro e no Campo Grande mudei para um Eléctrico até ao Lumiar, ainda os assentos destes eram de palhinha.
Depois fui andando até que, um pouco exausto, deitei-me e dormi na valeta uma pequena soneca, tal como um lorde!...

Ao acordar, decidi-me por tentar de novo a boleia, o que aconteceu: Apanhei quem me transportasse até à Dagorda, Óbidos, já num mundo conhecido.
Daí uma carroça, com um vendedor que se dirigia à sua banca no mercado de Peniche, transportou-me até ao sair da Atouguia da Baleia, mais propriamente dito até à Sancheira, um cruzamento de estradas a virar, à direita para aquela vila, à esquerda para a Bufarda, onde cheguei, de mota, ao nascer do dia.
Muito podia sofrer um militar daqueles tempos!...
Logo ao outro dia de manhã, voltei a partir para o "progenitor" Regimento de Infantaria 4 de Faro. Como já não estava previsto o regresso de boleia, recolhera os horários adequados dos transportes, para poder chegar, sem sobressaltos, ao obrigatório recolher da meia-noite de Domingo.
O horário de recolher foi cumprido; a experiência tornar-se-ia interessante. Reparei que utilizei muitos tipos de transporte, alguns só conhecia de ouvir mencioná-los, caso do Metro e carro Eléctrico.
Muito mais tarde fiquei a saber que de Faro para Lisboa nunca devia passar por Beja, teria de procurar transportes, mais para litoral, mas!...


Daniel Costa



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