terça-feira, 8 de Dezembro de 2009

Mundo e Vida




MEMORIAL A ROUSSADO PINTO



Recordar o passado não é viver apegado somente a más memórias se, se tiver uma mente optimista.
Prestar a devida homenagem a quem deve ser lembrado, pelo espírito empreendedor e aberto, pode ser ainda uma maneira de encarar as suas nuances pelo lado positivo, mesmo pensando em alguém, com quem chegámos a conviver com admiração e que deixou de pertencer a este mundo, como é o caso de José Augusto Roussado Pinto, finado em 03/03/1986, já vão 24 ano.
Fazia o favor de ser um bom amigo, segundo expressam alguns livros da sua autoria que me fez chegar com significativas dedicatórias.
Profícuo jornalista e autor multifacetado e incansável. Elaborou e dirigiu durante vários anos, o que considero a sua maior obra, o "JORNAL DO INCRÍVEL", que muitos ainda recordarão. O semanário sempre me foi amavelmente remetido até ao número 278, edição de 9 a 16 de Março de 1985. Aquele número tinha já a direcção da sua filha Zaida Roussado Pinto, dava conta da morte do seu criador aos 58 anos.
Nessa edição vinha reproduzida a última maqueta do finado Director, que quase sozinho dava semanalmente conta do trabalho de pôr de pé um periódico da envergadura de um "INCRÍVEL".
Há também a destacar "JORNAL DA SEXOLOGIA", figurando como Directora a sua filha, porém era visível a concepção e a criatividade de Roussado Pinto. Foram sempre saindo outras realizações, no campo literário, sobretudo Policiais, revistas de fotonovelas, contos vários, Banda Desenhada com textos da sua autoria, etc.Sabendo-se que usou dezenas de pseudónimos, em livros Policias, "Westerns", Espionagem, Amor, Aventura, segundo me foi afirmado de viva voz ,seria difícil mencionar todos.Trabalhou em vários jornais, como o "DIÁRIO ILUSTRADO", que existiu há várias décadas, de cujas reportagens concebeu livros como "EU FUI VAGABUNDO" e outros, com assinatura própria ou "A CABEÇA DA OUTROS", uma interessante compilação de pensamentos de vários escritores e até de anónimos, assinado com o pseudónimo de Steve Hill.

Estes livros foram editados por Portugal Press, situada na Rua Coelho da Rocha, 28 em Lisboa, de que era sócio creio que com todos os poderes.
Revistas de fotonovelas como "CARÍCIA" ou "IDÍLIO" em que utilizou um pseudónimo, que se lhe tornou muito comum, de Edgar Caygil.
Curiosamente privei com várias personagens, antes e depois da existência dos títulos, até com o muito conceituado fotógrafo, J. Nunes Correia, falecido em aparatoso desastre ao serviço da extinta revista "FLAMA".
Publicações, em edição da Palirex, Rua Padre Francisco, 14 Lisboa, de que também fez parte, compondo um trio de associados, todos com poderes administrativos.


O pseudónimo de Ross Pynn, talvez tenha sido o que mais utilizou, nas suas inúmeras produções.
Também foi incansável como autor e cronista de Banda Desenhada, como " O PLUTO", "MUNDO DE AVENTURAS", "TITÃ" e outros onde teve como companheiro um criador de BD, da envergadura de Victor Peón, com quem vim a conversar já depois da Revolução de Abril, no seu regresso a Portugal, outra morte prematura.
Roussado Pinto, assim como se dedicou a várias compilações, escreveu e editou bastantes romances Policiais, curiosamente quase, com cenários da América, assinado com nomes a dar a ideia de autor americano nato conhecedor daquele país, deixando assim a impressão de se movimentar naqueles meios. De facto o autor nunca visitou aquele Continente, disse-me um dia.
Inventava e imaginava os locais com as suas habituais leituras.
No entanto como tenho predilecção por romances Policias, desfolhei alguns assinados com nomes americanos, sempre conhecia quando eram daquele autor. Até sabia que em ocasiões de produzir mais um volume, era muito capaz de se isolar, um fim-de-semana, num qualquer hotel algures e saia a produção.
Da saudosa memória foi a revista "SELECÇÕES MISTÉRIO", de que foram publicadas nove números, onde Roussado Pinto colaborou quase sempre com contos Policiais inéditos, que me era dado ler como toda a revista, publicação do também incansável Lima Rodrigues, que me convidou a participar, portanto vim a receber toda a edição, depois de enviar as minhas produções para um jornal que ele havia adquirido, no entanto fui apanhado em altura de estar a sustentar a criação da minha própria revista o que me privou de alinhar com parceiros de valor como os que ali pontuaram.
No número seis de Novembro de 1981 foi publicada a realização de um convívio homenagem, mais que devida a José Augusto Roussado Pinto, teve lugar num restaurante de Santarém. Reuniu cerca de cento e cinquenta amigos que quiseram preitear-lhe a grande admiração, entre eles contavam-se nomes como o de Artur Varatojo, já com oitenta e um anos, Lima Rodrigues e muitos outros.
Foi apresentada uma exposição de trabalhos seus e entre vários discursos, assinalou-se o evento com a entrega ao homenageado, pelo seu neto, de uma salva de prata.
Sobre assuntos, sobretudo alguns dos muitos que abordava no seu jornal, cheguei a questioná-lo por os mesmos me parecerem ficção. A resposta era sempre igual, tudo o que ali era dito partia da veracidade. Mesmo tendo em conta o momento actual em que a ficção por vezes ultrapassa a realidade, tenho de equacionar a grande capacidade criadora ficcionista de que era detentor José Augusto Roussado Pinto.

"Capital": 4/5/1985


 "Capital": 5/3/195

A fatalidade chegou com o terceiro colapso cardíaco, que se pode entender pelo grande apego à realização patenteada, que o levava a trabalhar muitas horas.
Pouco depois do segundo colapso do género, que o levou ao hospital em 1982, o primeiro ocorrera em 1975, casualmente encontrei-o nos Restauradores, falámos pela última vez. Ali conversámos e como era bastante mais velho, além de focar o acidente que sofrera, achou por bem fazer-me recomendações sobre esse bem que é a saúde, parece que adivinhava porque o fazia. Concluo agora não ter sido por acaso, visto conhecer-me bem e de longa data.
Depois do segundo acidente voltou ao “INCRÍVEL” com a "febre" que o caracterizava.
No seu mapa astrológico já devia estar inscrito o sinal a indicar o fim do grande trabalhador da arte pela escrita.


Daniel Costa

quinta-feira, 3 de Dezembro de 2009

Mundo e Vida

A MINHA LISBOA
A MINHA DÉCADA DE SESSENTA


Nunca fui muito de falar de mim, erradamente talvez, porém quando já são passados os trinta anos de idade ( X 2 +), quando se olha o passado com a alegria de viver intacta, pode ter chegado altura de abrir as mãos e ver algo que se considera um pequeno contributo, para o grande todo que é esta sociedade, pode ser altura olhar um pouco das nossas vidas, o que sempre se consideram pequenos êxitos.
Partindo desse pressuposto rememoro a Lisboa de sessenta, década que considero a grande época da minha vida. Tudo me haveria de correr de feição e agradava-me o muito trabalho.
Foi nessa década que, finalmente, passaria a morar na grande capital. Trabalhando ingressei no curso liceal.


Lisboa: Restauradores e Avenida da Liberdade

Ao mesmo tempo fiz um curso de dactilografia, depois um de estenografia, antes de os gravadores o terem ultrapassado, ainda frequentava um curso de Inglês na Berlitz Scool do Conde Redondo, sempre locomovido a pé. Mesmo assim num só ano fiz primeiro e segundo anos liceais, com dispensa de provas orais.
A estenografia era ministrada em sessões individuais. A determinada altura passei a ser exemplo, pelo menos para uma outra aluna, pelo mesmo custo, usufruía o dobro das aulas, com o natural proveito.
Munido dos diplomas obtive o lugar de empregado de escritório, um sonho que perseguia. Sai ás quatro da manhã do trabalho de bar e às nove do mesmo dia estava à espera da abertura do escritório para entrar. Havia sido o primeiro a chegar.
Vim morar na Rua da Bela Vista à Graça, mesmo junto ao seu começo, na Rua do Vale de Santo António. Diariamente percorria todos os trajectos a pé.
Primeiro ia até à Rua das Portas de Santo Antão, ainda no mesmo patrão, passei a ter de subir mais a Avenida da Liberdade, até à zona do Parque Mayer, junto ao primitivo Café Lisboa de muita tradição.
A transição deu-se para o fim da Travessa das Mercês, no princípio, junto à Rua do Século. Ali cheguei a chefiar o escritório, do que não me senti honrado, monetariamente nada veio a resultar.

Igreja da Graça, vendo-se uma panorâmica do Tejo

Muitas vezes chegava ao largo da Graça ideando fazer o trajecto no eléctrico 28, ainda hoje em funcionamento, mais turístico, encontrava sempre fila (ao tempo dizia-se bicha) para o apanhar. Tinha palmilhado já cerca de quilómetro e meio, acabava por achar mais simples, fazer o resto do caminho a pé.
Um dia fiz férias em Maio, para responder e colocar anúncio para novo trabalho. Estas tinham acabado, já tinha entrado ao trabalho, quando chegou uma convocatória que pareceu interessante.
Era do Dafundo, de uma grande empresa gráfica ali me desloquei, apresentei-me a quem fazia a selecção do pessoal.
Fui apresentado ao administrador, Dr. Manuel Metelo, que veio a ser Presidente da Associação dos Proprietários Lisbonenses.
Depois ser acedido examinar-me, no Domingo seguinte, evitando o meu tempo útil de trabalho, condição que impusera.
No dia aprazado, estava eu a fazer testes, findos os quais veio imediatamente a aprovação, com os seguintes comentários:
Afinal o senhor na sua carta de candidato foi muito lacónico!
- Aqui houve a possibilidade de aquilatar o valor dos meus serviços!
- Respondi.
- O senhor é modesto, pediu apenas três mil e quinhentos escudos de ordenado (era bastante), quando os seus novos colegas ganham seis mil!...
Vamos atribuir-lhe, por agora, quatro mil!
- A situação durará apenas alguns meses, depois entrará no sistema remuneratório normal, para a função.
Passados três meses passei ao escalão dos seis mil. Para a época era um grande ordenado, tanto mais que na altura um funcionário público, por exemplo, da classe de trabalho de carteira, auferia mil e oitocentos escudos.
Entretanto também começava a ser agente de seguros de vida, não seria dos piores elementos da equipa, a avaliar pelas comissões que levantava.
Nos anos sessenta casei e fui pai de uma menina, um gosto!
Por tudo isto, os meus anos sessenta terão de ser eleitos, como o período de ouro, únicos de uma existência viva.
Deram-se muitos acontecimentos importantes em Portugal e no mundo. Destacaria a ida à lua por americanos.
A minha Lisboa, se comparada com a globalidade actual, era uma aldeia muito grande. Conheci-a, talvez como ninguém, mesmo os que tinham o privilégio de a terem como berço,
As redondezas e o Parque Mayer fervilhavam de gente, sobretudo à noite. Visitar as salas de teatro do Parque, para assistir à exibição de uma qualquer Revista à Portuguesa, era como um louvor aos deuses.
Vinham excursões de outras terras para ver quadros das piadas em exibição, contundentes, mas sempre na presença de censores e polícias à paisana.
Os estabelecimentos nocturnos internos e os externos das imediações, a partir da dez da noite enchiam-se de clientela artistas, cenógrafos, autores, polícias, carpinteiros de teatro, "habitués" e outros.
Era um gosto assistir por fora a este espectáculo alucinante extra.
Se escolhera viver em Lisboa, a observação vivencial deste ambiente lúdico, para mim, era o culminar do arreigado desejo de morar na cidade.
Depois havia o inefável Chiado, subido a pé.
Lisboa afinal era o máximo!... Já tinha passado a canção, não me lembro quem a cantava. Rezava assim: "No Chiado/à tardinha as meninas vão/em procura de marido", Etc.
Despontava a elegância da Avenida de Roma e sobretudo na Rua Guerra Junqueiro.
Era esta a Lisboa que eu amo, pois até comecei a morar em casarão, com janela a avistar o magnífico Tejo.
Hoje está diferente, nem a conhecerei tão bem, mas para mim, Lisboa será sempre Lisboa. Avistá-la muitas vezes da ponte sobre o Tejo, a 25 de Abril é um sonho. Um espectáculo de inolvidável beleza.


Daniel Costa

sexta-feira, 27 de Novembro de 2009

Mundo e Vida


Criação de perus


Venda ambulante de perús em Lisboa pelo Natal 

PERÚ DO NATAL



Creio que por todo o país, chegou a estar muito arreigado o hábito da ementa da ceia de Natal das famílias incluir carne do peru.
Os tempos são outros, a vulgarização da ave, que passou de doméstica a criação de aviário veio fazer com que apareça nos talhos e nos supermercados todo o ano, portanto menos desejada numa época específica, como o Natal.
Depois quer se queira ou não, a carne de aves de capoeira, uma vez criadas em aviário não fazem tão bons cozinhados, já não dão a antiga áurea à cozinheira doméstica, como antigamente.
Tempos houve em que, pela quadra do Natal, por todos os bairros de Lisboa, passava um homem conduzindo uma manada de perus, apregoando-os.
Nos anos sessenta passava, diariamente, no largo Martim Moniz, em Lisboa. Nesta quadra testemunhava, o típico vendedor de perus sempre ali.
Parece que o estou ainda a vislumbrar, junto dos pré-fabricados a albergar as diversas casas de comércio, que substituíam provisoriamente outras velhas, eternizando-se à espera da remodelação total.
Interessante a tipicidade do vendedor e condutor de perus, o casaco sempre amarrado à cintura, pelas mangas e a imitar o grunhido dos animais, como a falar com eles, guiando-os.
Recordar estes tempos, sem sombra de nostalgias é agradável.
Porém, tentemos acompanhar o galopante progresso deste século, que nem a visível recessão travará.

Daniel Costa



quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

Mundo e Vida



HISTÓRIA QUE NÃO CONTEI



Da parte familiar paterna, havia a ideia de que não era curial enfatizar os êxitos pessoais. Tinham que ser as pessoas a darem pelos factos e menciona-los. Sempre achei errado, o que pode ser publicitado como facto consumado deve ser dito de viva voz.
Quando se pode mostrar obra realizada, deve mostrar-se, porque obviamente não serão os outros a enaltecer suficientemente o nosso trabalho.
Ao contrário projectos ou quejandos podem merecer a entrada no reino da neutralidade, enquanto o forem, senão poderemos ser tidos e criticados como falaciosos.
De qualquer modo pouco evoquei os meus pequenos êxitos ou feitos pessoais e serão alguns.
Um grande amigo, com quem conversava imenso, um dia disse-me: "já fizeste tudo, de facto és verdadeiro homem, plantaste árvores, fizeste um filho e agora um livro". Fiquei aparvalhado, porque me estava a ser atribuído um alto valor.
De facto, editava e dirigia um pequeno periódico mensal e ao fim de doze meses, mandei encaderná-lo. Era um livro.

A incidência do registo dessa publicação, por me parecer interessante vou aqui trazê-la.
Estávamos no ano de 1973, propriamente no mês de Janeiro, o meu B.I. ainda actualizado, o único documento exigido para registo da Revista, de Direcção e de Edição do periódico, dava-me como trabalhador agrícola, facto que à época estava mais que ultrapassado, por liceu e vários outros cursos, além de que tinha adquirido formação na área gráfica.
Foi com esse documento, que em nome próprio, registei no SNI - Secretariado Nacional de Informação, sito nos Restauradores, em Lisboa, onde era Secretário do Estado de Estado de Informação o Dr. Moreira Baptista, a FRANQUIA - Revista Filatélica Portuguesa.
Ficou obrigatoriamente registada a gráfica que a faria, a tiragem e nome do Director; Daniel Cordeiro Costa, que também podia utilizar o pseudónimo de Miguel Foz.
O atendimento, feito por uma senhora, decorreu dentro da maior cordialidade. Só mais de um ano volvido, apareceu concretizado o registo já tinham saído dois números da Revista, que se iniciara a 15 de Janeiro de 1974, depois do meu telefone estar sob escuta e de durante uns dias, ter notado o "acompanhamento" por um esbirro à saída de casa e outro na entrada de emprego, que ainda mantinha.
A aceitação ter-se-á dado porque a publicação era especializada e (erro) o Director não tinha de ser letrado, o que interessava era saber do tratado ficou isenta de censura prévia
Penso que a sorte também me bafejou, uma vez que sendo associado do Clube Filatélico de Portugal, onde dei conta do projecto.
Fazia parte da Assembleia-Geral um Tenente-Coronel pertencente ao grupo dos três Censores de topo, a quem incumbia aprovar o registo de novas publicações.
Terá procurado ali informações e como lhe foram dadas boas referências. A "palermice" produziu a escusa de se pensar em mais pormenores e de imediato terá sido feita a aprovação.
Vim a aprender entretanto, que filatelia é mesmo um mundo do saber. Considerava-me culturalmente capaz de estar à frente de uma qualquer edição em papel, nem sabia que me faltava aprender tanto, como aconteceu no mundo da filatelia.
Sendo assim, julgo ser detentor do ineditismo em Portugal, pelo menos depois de meados do século XX, ter protagonizado o registo e direcção de uma publicação periódica como trabalhador agrícola.
Nascido na Bufarda, freguesia de Atouguia da Baleia, concelho de Peniche, sou-o certeza.
Da revista FRANQUIA saíram trinta e sete números está encadernada em três volumes. Tornou-se economicamente inviável, curiosamente porque acabou o grande mercado de Angola, donde chegavam assinaturas em todos os transportes aéreos, pagas em cautelas premiadas e rebatidas depois. A transferência de dinheiro era interdita.
Depois, servindo-me dos nomes do ficheiro e da mesma designação e registo, parti para outra versão.
A revista passou a ser mais jornaleco, mais comercial, mais catálogo de vendas de nome "Bolsa Jornal Clube FRANQUIA", Foram editados duzentos e vinte e três números.
Pode parecer mentira mas ajudou a anular a coluna débito.


Daniel Costa





domingo, 15 de Novembro de 2009

Olhem Caíu uma Avioneta

OLHEM CAÍU A AVIONETA!...



A interjeição saiu tal qual como menciona o título em terras do Vale Medo, lado Oeste da Bufarda, mais propriamente do Casal Foz, Peniche, gritado em uníssono por um grupinho de trabalhadores, que o tio José Miguel trazia de jorna na hora do jantar (meio dia pelo sol hora do almoço nos centros urbanos).
Do pequeno grupo, que o tio tinha reunido orgulhosamente, por serem todos sobrinhos, de que também eu fazia parte. O objectivo era o de proceder à cava da sua vinha e pomar.
Estávamos em pleno mês Janeiro de 1958, o frio e o vento eram intensos, pelo que o jantar procedia-se no abrigo de uma caniceira a servir de protecção à vinha e árvores de fruto.


De repente ouviu-se o bimotor, que vinha a passar nos ares, o que era vulgar, já que se estava relativamente perto da base aérea da serra de Montejunto. Ao ouviu-se um estrondo, a reacção foi a de ver o que se passara afinal.
O aparelho estava despenhado, desfeita e espalhada a sua estrutura apenas a algumas dezenas de metros, no meio de uma enorme extensão plana, com culturas de trigo, que ainda estava pouco saído da superfície da terra.
Pensou-se no que teria acontecido ao ocupante ou ocupantes, por algumas horas não houve respostas, só a imaginação trabalhava.
Depois a verificação pesarosa da existência de um cadáver, no terreno. Era o da Nazaré, viúva do José Pão, que estava sozinha, na extensa planície a mondar trigo no terreno de um dos filhos. Naturalmente devido à intensidade do frio, não se avistava outra alma, sem dúvida a mulher estava no local errado à hora errada!... Coisas do destino, dizia muita gente que acorreu!...
Chegados perto da noite, soube-se que a avioneta trazia um só tripulante, este conseguira ejectar-se e munido de para quedas, caiu ileso num outro campo de trigo, também perto do mar a cerca de cinco quilómetros no Paimogo.
Os destroços da avioneta foram sendo encontrados por lavradores, a distâncias enormes, sendo recolhidas por estes, procurando empregá-los em proveito próprio.
Fica outro apontamento de vida não muito longa, porém muito vivida.


Daniel Costa





sábado, 7 de Novembro de 2009

mundo e vida

UMA DAS POUCAS PEÇAS QUE ESCREVI COM A PALAVRA FILME, DEDICO-A COM AMIZADE À GRANDE MULHER RENATA, POR QUEM TENHO UMA ESTIMA ILIMITADA.


FILMES - LUSOMUNDO E O SENHOR AURÉLIO



"O diabo sabe muito, não por ser diabo mas por ser velho". Por mim, que já fiz trinta anos, julgo que a máxima não deve ser assumida.
Sempre me ocorrem memórias, por vezes chegam com os sonhos, como se estes fossem alfobre. Não é que me veio à memória o senhor Aurélio que os céus guardarão?
Passava-se nos anos sessenta, à tarde diariamente aparecia o emissário da Lusomundo, com o original fotográfico, Encomendava uma fotogravura do mesmo e levando feita uma outra, que deixara na véspera a executar.
As gravuras ficavam sempre desmontadas (sem calços de madeira), prontas seguirem para a galvanoplastia afim de servirem de molde a poder mandar executar repetições em chumbo para servirem em campanhas publicitárias de estreias de filmes em salas de cinema da capital.
Recordo o senhor Aurélio, aparentava figura apagada, parecia mais um criado barato da Lusomundo. Seria apenas para quem pensasse assim, visto descobrir ser bom conversador e dominava todo o aspecto das campanhas insertas nos jornais, para as estreias dos filmes.
A figura acabava por ser simpática no tratamento e porque tudo aparecia planeado, não se dava pela pessoa, só não passaria despercebida a um bom observador que a podia refutar de típica. Era de estatura baixa, nada novo, tratava dos assuntos em poucas palavras, trazia escrito o importante quando o era fazia sempre o seu cumprimento, era mesmo amigável, enquanto misterioso nas suas visitas diárias.
Mais nada era visível.
No fim de cada mês, mediante guias de remessa, a factura era enviada á empresa distribuidora de filmes e a mesma fazia normalmente o pagamento durante os trinta dias seguintes estipulados.
Em regra funcionava a via postal, para assuntos envolvendo facturação e pagamentos.
Só gora a distribuidora Lusomundo, que entretanto, se alargara à Cabo, mercê de alterações diversas, como a entrada noutra rede e a inclusão de novos quadros, muda de designação e a 01 de Novembro de 2007, passa a ser TVCine - Canais de Cinema.
Esta notícia lida recentemente trouxe-me à memória o inefável senhor Aurélio e a sua visita diária.
Diria, um homem mistério de agradável recordação!


(Escrito e publicado em 18/10/2007)


Daniel Costa

domingo, 1 de Novembro de 2009

Mundo e Vida




FIGURA INESQUECÍVEL – AMÉRICO TOZZINI



Na verdade há pessoas marcantes na nossa vida, como aconteceu com Américo Tozzini, que não chegou a este século, segundo julgo, o motivo foi a inevitável viagem ao mítico mundo do além. Afinal sabia que estava já na presença de um amigo de idade avançada, além de que bastava observar a sua escrita a denunciar decrepitude.
Mas devo render-lhe a minha homenagem, porque ao iniciar-me como Director e Editor da minha revista FRANQUIA, recebi dele apoio, alguém de longe e enquadrado em assunto tão especializado, como é do vasto mundo comunitário da filatelia.
A minha intenção era abranger tudo o que fosse a comunidade de língua portuguesa, incluindo o Brasil. Daquele país estendia-se-me logo uma mão.
De facto o Tozzini fazia uma coluna especializada no Jornal de São Paulo e fazia o "Cinco Minutos com a Filatelia", no programa radiofónico "Pulo do Gato", da Rádio Bandeirantes.
Passei a receber regularmente entre vasto correio o daquele amigo, sempre com as novidades brasileiras do âmbito e o importante estímulo.
Passou a tomar iniciativas sem me consultar, fazendo marketing da minha publicação, com a oferta de assinaturas aos vencedores de um concurso que promovia no "Cinco Minutos com a Filatelia" mencionando a Revista e promovendo-a entre os muitos jornalistas brasileiros da especialidade.
Fazia muitos comentários, escrevendo expressões a propósito, como fulano é daqueles que se "põem em cima do muro, esperam que a procissão passe para saltar para a frente".
Achei este dito o máximo, adequava-se perfeitamente à pessoa em questão, fixei e emprego-o por vezes.

 Aerograma do Correios do Brasil, dos muitos que Américo Tozzini me escreveu

Como Director, em tudo o que escrevia usava o pseudónimo de Miguel Foz, por admiração familiar talvez em jeito de homenagem.
Sobre isso escreveu: "Você com um nome tão machão como Daniel Costa não precisa nada de pseudónimo".

O pseudónimo estava registado oficialmente, disse-lho e expliquei os meus porquês da utilização.
Cheguei mesmo a ter uma pasta especial onde arquivava essa vasta correspondência. Actualmente mantenho apenas vários documentos por serem peças de filatelia.
Por fora das cartas sempre me "mimoseava" com palavras como grande Jornalista ou Editor.
Durante cerca de trinta anos durou a troca de correspondência, até que se terá dado o falecimento do meu grande amigo Tozzini


Daniel Costa