quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

mundo e vida





JUSTIÇA POPULAR
CONTO





Em terras do Oeste, num casebre no meio do vasto campo de cultivo designado de Vale da Serra vivia um viúvo acompanhado da filha, diziam as más línguas estarem amancebados, o que a ser assim aquele modo de vida um verdadeiro incesto.
Um negociante e comerciante estabelecido, com fama de se servir da lojeca, para sede dos seus negócios menos ortodoxos, um dos quais se baseou em petróleo, ali ia tratava das suas negociatas de conveniência.
Estava a viver-se os efeitos da Segunda Grande Guerra, ainda a devastar a Europa a fazer-se sentir um pouco por todo o mundo, era tempo de racionamento, umas gotas do combustível destinado à iluminação, à mistura com água, fazendo uma grande mancha no chão térreo do logradouro, uma demonstração da sua esperteza para a fraude.
Chamou a autoridade e fazendo crer que, por pouca sorte, se entornara todo o bidão. Como poderia atender os clientes, que acorriam ali pontual e mensalmente a apresentar as suas senhas de racionamento?
Pouco tempo depois, foi reposto o petróleo e já tendo atendido todos os fregueses, vendeu-o a alto preço na candonga, um rentável mercado paralelo.
Uma fraude, que o estado de alerta de guerra, com o consequente racionamento de muitos bens podia proporcionar.
É apenas um exemplo de como e senhor Viriato atingiu um certo patamar da riqueza, que passou a exibir.
Começou por mandar construir estabelecimento próprio e alargar os seus interesses de negócios. No mesmo prédio, edificou um andar superior onde instalou a habitação de família.
Uma criada, que ao tempo se designava genericamente de “sopeira”, enfatizando o estatuto de vida faustosa que atingira.
Junto á casa tinha o seu armazém para guardar mercadorias, havia arrecadações para os produtos domésticos. Instalara ali também o aposento da criada.
Em determinada madrugada o Sem Tenças que tinha criado uma junta de vacas de que era o abegão.
Nessa qualidade e porque fazia com elas os dias de jeira de sol a sol, a necessidade de proceder à alimentação dos ruminantes, horas antes do nascimento do astro rei que dá luz ao mundo. Ao ir ao poço comunitário buscar água para fazer a mistura da ração, ouviu um ruído estranho, no escuro pareceu-lhe ter avistado um vulto. A seguir este desapareceu, deixando-o descansado.
Passado algum tempo voltou a buscar água – o mesmo ruído. Sempre resoluto, mas assaltado por uma certa dose de medo, encostou-se a um muro, para poder observar sem ser visto.
O que observou levou-o a acordar e chamar o amigo Esquim, também rapaz novo e possante, como ele, ambos ao verem o vulto entrar nas instalações do Viriato, ficaram sem dúvidas tratava-se de um ladrão.
Nisto passaram a actuar, acabaram por concluir tratar-se do Carocho, pai da citada criada o que lhe dava um certo conhecimento da casa para se “abastecer” ali dos víveres armazenados, com certo à vontade.
Em breve chegara toda a população da aldeia, com a sua solidariedade, o Sem Tenças, com jeito para a investigação, tratou de saber tudo.
O Carocho encurralado não tinha outra alternativa que não fosse revelar. Inteirou-se de que era certa a primeira visão. O “rato”ao regressar a casa verificara ter-se esquecido de algo.
Actuando como se estivesse no seu mundo, voltou ao local do crime. Aquela jornada destinava-se apenas ao abastecimento de toucinho.
Depois entraram elementos da multidão, a curiosidade pelo modo de operar tinha de ser satisfeita e a cada passo da respectiva narração malhavam no lombo do Carocho mais uma paulada.
Uma minúcia escabrosa a ser sublinhada com “mimos” verbais e a incansável tortura da acção do usual marmeleiro iam ditando as leis.
Rompia o dia, todo o mundo iria trabalhar para os campos, lá deixaram o homem ir embora a arrastar-se, mas em paz de mãos a abanar de vazias.
Ninguém mais falou do assunto, não foi necessário, trabalhou a instituição justiça popular.




Daniel Costa

2 comentários:

Pensador disse...

O problema é que nem sempre a "justiça popular" tem razão. Muitas vezes condena sem ouvir.
Isto é o que sempre me preocupa.

xistosa - (josé torres) disse...

Por vezes até me apetece ser ladrão.
Não é que apanhei um, que me roubou o computador e "meti-o" no meu escritório para acertar-lhe os ideais.
Soube depois, pelo chefe da esquadra, que se ele se tivesse queixado, eu era preso por sequestro e ele só identificado ...
É esta a crueza da verdade.

Um abraço.