sexta-feira, 15 de maio de 2009

conto



TI ZÉ PEREIRA

(conto)


Na aldeia, muito dada à produção vinicola, acreditava-se nas visões extra-terrenas, que as lendas sempre imortalizam.
entre dois goles de bagaço, quer ao "mata-bicho", ou depois do sol posto, para amenizar a frieza das noites invernosas, os aldeões não deixavam de falar nas inúmeras visões, de que se diziam protagonistas e outros as divulgavam, transformado-as cada qual a seu "paladar".
No percurso entre as duas aldeias vizinhas, que se comunicam apenas por veredas térreas e medonhas, era corrente aparecerem as mais estranhas visões.
O clássico lobisomem , que passava célere, qual furacão que não deixasse estragos.
Um mostro estranho de vozes roufenhas, que não mais não fazia do que deixar aos seus videntes todos os pêlos eriçados.
As almas do outro mundo sempre duma alvura contrastante com as trevas, emitindo ruídos só caraterísticos da fúria dos elementos que assolam noites dos Invernos.
Apareciam também "coisas". Umas que se assemelhavam a grandes cobras, outras a pequenos animais de aspectos diferentes dos que se conheciam e que pulavam na frente do transeunte num gozo frenéticamente arreliador, que acabava por confundir o protagonista, pondo-o a magicar no mafarrico.

Sendo perdido, invariavelmente, ar resoluto o comtemplado com esta visão, que a princípio se apresentava divertida, acabava debandando desabridamente, qual atleta Olímpico, mas capaz de fazer inveja a este.
Também as bruxas, não raro, faziam a sua aparição, mas essas apresentavam-se sempre galhofeiras. As suas românticas partidinhas nunca assustavam. Eram, dizia-se, mulheres que tinham o condão de, periódicamente, incarnarem aquela metamorfose, que lhes dava ensejo de vingar com as suas sátiras os agravos daqueles que outrora as haviam "catrapiscado" a título de mero passatempo.
Ti Zé Pereira, fazia aquele trajecto com certa assiduidade, mercê dos seus negócios de lavrador médio e próspero. Fazia-o normalmente pela calada da noite, pois que do dia não lhe sobrava tempo da sua labuta campestre.
Ufanava-sa de nunca haver detectado algo de estranho e não escondia a sua descrença naqueles factos embora narrados muitas vezes com a maior convicção, por pessoas dignas dos maiores respeitos e créditos.
Ti Zé Pereira à medida que avançava em idade intensificava os seus passeios por aquelas veredas, qual notívago que procurasse na aldeia vizinha a sua aventura amorosa. Quem lhe atentasse no rosto repararia, por certo, no seu ar prazenteiro, nem sempre por o negócio ter lhe haver corrido bem, mas porque no fundo nunca deixava de trazer na mente as visões, encarando-as com um ar de desafio.
Chegou a acontecer, que o bom homem era despertado das suas cogitações pela restolhada de alguma lebre ou gato bravo, acabando por dar consigo a rir, pensando que na próxima conversa já teria o seu o seu fantasma para descrever com o "sal" que só ele sabia aplicar ás suas histórias.
Um dia porém, no regresso duma dessas rotineiras viagens, Ti Zé Pereira descortinou barrando-lhe o caminho, algo que primeiro lhe pareceu um homem inerte, depois uma larga chapa de ferro. Com o seu forte cajado de marmelo, resolutamente, tentou virar aquilo que lhe pareceu também matéria flexível e invulgar, como se realmente de ser vivo se tratasse.

Sem se assustar ainda, tentou observar e analizar o fenómeno bem de frente.
Já curvado sobre o objecto da sua curiosidade, Ti Zé Pereira ouviu uma voz, ora clara, ora rouca, que tranquilamente ia martelando palavras.
Quem vai, vai...Quem está está... Quem vai, vai... Quem está, está... Quem vai, vai... Quem está, está...
Tanto bastou para que num ápice o destemido lavrador se encontrasse em casa, mas mais branco do que as alvas paredes da sua casa térrea.
Daí em diante, quem encontrasse o Ti Zé Pereira estranhava o seu desencanto e o alheamento das coisas.

Deixara mesmo de ingerir alimentos e definhava a olhos vistos.
Não se passou muito tempo.

O sino da pequena capela da aldeia dobrava a finados pelo Ti Zé Pereira, que havia deixado o mundo das visões sem ter podido ganhar alento, para romancear a sua estranha aventura.


Miguel Foz (pseudónimo de Daniel Costa), publicado no extinto "Jornal do Oeste" de Rio Maior - 21/04/1973 (terá sido a estreia?).

4 comentários:

Dulce disse...

Ah, as histórias de assombrações!...
Ouvi-as tanto, quando criança, contadas nas noites de frio, na roda de familiares, do tempo em que meu pai e meus tios moravam na fazenda e andavam a noite pelos campos...

BOTINHAS disse...

Daniel, amigão
É sempre assim, os mais pequenos (e não só em tamanho físico...) são sempre os mais refilões :)))
É uma maneira de se sentirem GRANDES!

Abraço fraterno
Botinhas

PS - O TEU CONTO É BASTANTE TÉTRICO. VÊ O QUE ACONTECE A QUEM ACREDITA EM TUDO O QUE OUVE...
O POBRE DO TI ZÉ, SE PENSASSE QUE TINHA SIDO ILUSÃO DO SEU OUVIDO, AINDA HOJE PODIA ESTAR VIVO...
MAS É UM CONTO MUITO INTERESSANTE.

BOTINHAS disse...

Amigão Daniel
Ainda bem que sorriste. Faz bem à saúde.
O teu voto foi anotado. A tua não está nada mal classificada. Vamos ver qual será a vencedora.

Abraço fraterno
Botinhas

poetaeusou . . . disse...

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e quem fica, fica,
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ficou a voz . . .
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um abraço,
,
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