quinta-feira, 28 de maio de 2009

recordar na onda do optimismo


Na foto, na decadencia, pode ver-se a coelheira e o galinheiro, que construí,
nos anos cinquenta.

RECORDAR NA ONDA DO OPTIMISMO

Devo ter nascido optimista, deve ser uma das minhas facetas congénitas. Devo a mim o direito de achar isso, a minha principal qualidade, que espero manter.
Aqui está o preâmbulo desta charla!
Para que não se pense estar aqui um saudosista, adoptei desde criança o lema - "recordar é viver".
Depois de ter saído da escola primária e de até já ter cumprido, a rogo do meu pai, alguns actos de votação, até para as presidenciais a eleger o Senhor General Craveiro Lopes.
A própria índole levaram-me a nunca ter brincadeiras, que não fossem sérias imitações do quotidiano dos adultos.
Foi assim que, não teria mais de onze anos, comecei a restaurar a loiça que se partia em casa. Daí foi nascendo alguma clientela e consequentemente os meus primeiros centavos.
Recordo o meu poder de imaginação, seria pouco menos do que prodigioso, a ferramenta existente era apenas um martelo. Com brocas em arame de aço, metódicamente, enfiadas em cabos de madeira, da minha autoria.
A primeira ferramenta servia para bater velhos arames, partidos aos pedaços e achatando-os, dobrando-os em ângulos rectos nas pontas. Chamavam-se gatos!
Numa segunda fase, com a broca faziam-se vários furos nos cacos da loiça. Depois uniam-se os mesmos pela inserção desses bocadinhos de arame (gatos). No fim alindava-os com cal branca (havia sempre em casa), pratos terrinas, cântaros e por aí fora, ficavam prontos para servirem e duraremm, até que outro tambulhão os fizessem em bocadinhos mais exiguos.
A imaginação para arranjar alguns cobres, estava sempre a aparecer e já consolidada uma fonte de receita, arranjou-se nova, essa já recorrente, visto que o mercado já existia:
- Consistiu numa bola de borracha e todos os que queriam jogar pagavam, salvo erro um tostão, organizava-se um desafio, no campo do Lusitano Clube da Bufarda, este o nome da minha aldeia no Oeste.
Não havia limitações de tempo.
Como foi adquirida a bola, se na aldeia não se vendia?...

Simples: o pai tirou o dia para ganhar a jorna. Programou o trabalho para os dois filhos mais velhos a cavar a vinha, que ficava a seis quilómetros da Lourinhã. Combinou-se trabalhar com afinco, para que eu próprio fosse à vila a pé fazer a aquisição, sem que no outro dia o pai desconfiasse da ausência.
Não teria mais do que doze anos.
A imaginação e o verdadeiro espírito de aventura estavam sempre latentes.

Com estas invenções ia havendo dinheiro, para as realizações pessoais, fora do âmbito do "negócio".
O passo seguinte foi a construção da tão desejada mesa de secretária. A obra foi elaborada a partir da madeira dos caixotes de sabão que os logistas vendiam a dois escudos cada, depois de esgotado o conteúdo, o único detergente que havia para uso.
Pregos também ali se podiam aquirir.
Ferramentas? O velho martelo, uma faca de cozinha e um serrote, que servia na poda das videiras.
Estava construída a estrura e agora as ferragens? Se as economias não chegavam?
- Simples, dispondo de inegável poder de imaginação, o problema foi resolvido com a inserção de calhas de madeira, para as portas deslizarem.
A primeira dessas realizações foi trocada por velha gillete, com um primo mais velho. É que aos treze anos comecei a rapar os pêlos da cara.
Aquela peça de mobiliário já não satisfazia, as exigências. Construí nova do mesmo modo, mais conseguida, outra sofisticação. Sempre a limitação das medidas da madeira aproveitada dos caixotes.
Esta última durou sempre em casa dos meus pais, até há pouco, quando se deu o fim, mas é provável ainda existir algures.
A madeira e o papel, afinal sempre fizeram parte do minha estrutura psíquica, para além dos tempos infantis.
Do muito, que imaginei jovem, existe em fotografia, uma casota de madeira, para recolher as galinhas a nível da terra.

Coelhos na divisão superior.
Teria chegado aos catorze anos, a mãe tinha sempre bastantes galinhas poedeiras, patos marrecos e coelhos, de cuja criação ia arranjando o seu pecúlio.
A determida altura, as estruturas de recolha desses animais estavam degradadas, o pai nunca mais decidia arrajar novas, nem tinha muito jeito.
Propus-me então meter mãos à obra. Era de prever que obtinha o apoio da principal interessada, porque o pai, apesar de tudo desdenhava, uma atitude, que talvez incentivasse, porque criava mais responsabilidade.
Bem, juntei a madeira antiga, compraram-se mais algumas peças. Em época de chuva, não se podendo trabalhar no campo, por o terreno estar ensopado, atirei-me à obra.
Para o telhado, as telhas do anterior, mas não havia meio de atinar com a feitura, de modo, a que a água saísse. Aí sim o pai, que começara por assistir com uma ponta de desdém, ensinou e deu gostosamente, a sua ajuda.
Afinal eram assim os anos cinquenta.
Agora chamariam a isto, misérias!...

Foto e texto de Daniel Costa

2 comentários:

Dulce disse...

Lindas lembranças de um menino inteligente e criativo, que desde cedo aprendeu a conseguir um dinheirinho para suas necessicades básicas e que foi aprendendo responsabilidades e que, como resultado não mais nem menos que uma vida digna, um exemplo a esses meninos de hoje que nem desconfiam o que possa ser uma vida apertada.
Além do que, um otimismo próprio de quem aprendeu a suplantar barreiras.

xistosa - (josé torres) disse...

Até aqui, que é a primeira página do blog, encontrei verdadeiras pérolas.
Não conhecia esta "casa".

Gostei muito e vou voltar.
Aliás, para não me esquecer, vou colocá-lo no Quadro de Honra do meu "cardenho".

Um abraço e parabéns.