domingo, 7 de junho de 2009

mundo e vida



SOPA DE PEDRA

A culinária do Ribatejo assemelha-se à Estremadura, em muitos aspectos. Como no caso do prato designado Sopa de Pedra, mais típico da Vila da Almeirim.

Equivale ao que no Oeste se designa por feijão com batatas, que comi inúmeras vezes.

Quando a mãe respondia á questão: “o que é hoje o jantar?” (Chamava-se assim ao almoço).

É Feijão com Batatas!

Lá em casa, a miudagem exultava, era como se fosse algo de especial.

A receita era apenas composta por feijão, batatas, toucinho e uns nacos de chouriço.

Várias vezes, a propósito a mãe contava, sem a situar, a lenda da Sopa de Pedra.

Era mais ou menos assim: um frade peregrino, já esfomeado mendigou esmola em casa de um lavrador abastado.

Tendo-lhe sido negada, disse: verei se faço um caldo de pedra.

Nisto agarrou uma pedra e pôs-se a olha-la, naturalmente vendo se seria boa.

O pessoal riu-se da lembrança do frade. Então este perguntou:

- Então nunca comeram um caldinho de pedra?

É um petisco muito bom!

Ao que responderam: sempre gostaríamos de ver isso!

O frade lavou a pedra, deitou-a na panela e meteu-lhe água dentro.

Dirigindo-se à dona da casa:

- E agora de me deixasse por a panela no lume?

- Com um bocadinho de azeite ficaria melhor, mais saborosa!

- Depois de ferver disse: falta-lhe uma pitada de sal, está um pouco para o insonso!

- Falta-lhe um naco de toucinho, para melhorar!

- Com um pouco de couve, ficaria um manjar!

- Com um bocado de chouriço, ficaria divinal.

A tudo o que foi pedido, a dona de casa correspondeu.

No fim comeu e mostrou-se satisfeito.

Questionado sobre a pedra, que ficara no fundo da panela: disse lavo-a e como é muito boa, vai comigo, para a outra vez.

Foi assim, que saciou a fome onde começaram por negar a comida.

Ainda nos anos sessenta, com um casal amigo, fomos a um restaurante no Ribatejo, não, não foi em Almeirim. Como faço sempre em algum restaurante, quando entro de novo num santuário gastronómico, olhei e a afamada sopa e exclamei:

- Feijão com batatas!...

Pedi frango no churrasco, enquanto dizia: quando me apetecer, a mãe faz melhor.

Não há muito tempo, a convite fui ao mesmo restaurante comi, mas achei não valer a pena.

Já então tinha saboreado o petisco em Almeirim, em grupo e foi satisfeito o meu palato.



O mês passado voltei a Almeirim à Sopa de Pedra (sem pedra), ao restaurante “O Forno”, que de facto satisfaz o apreciador, mesmo o mais exigente!

Acabei por ver que naquela Vila Ribatejana, ao “feijão com batatas” pode chamar-se mesmo manjar… Manjar dos deuses!

Daniel Costa

4 comentários:

Tentativas Poemáticas disse...

Amigo Daniel
Isto que está a fazer é crueldade! Fiquei com água na boca e com os cabelos em pé, enfim, aquilo a que lá pelo Ribatejo se chama "augado".
Sou lisboeta mas desde muito novo adoptei o Arripiado (Chamusca) como a minha segunda terra. Lá vivi durante uns anos, com casa na Carregueira e negócio na vila da Chamusca. Julgo com isto dizer tudo em relação à sopa da pedra assim como às couves com feijão e couve a soco.
Obrigado por esta publicação tão gostosa!
Um grande abraço.
António

poetaeusou . . . disse...

*
Almeirim,
terra irmã da Nazaré,
Nazaré. Praia dos Ribatejanos,
a Leziria feita Mar,
num Mar que lembra a Leziria,
Ribatejo
o tejo de Alves Redol,
Avieiros e Gaibéus,
em "Uma Fenda na Muralha" do
Redol "Nazareno"
,
da Sopa e Touradas recordei
o Manel, o Viseu o Chibanga,
,
um abraço amigo,
,
*

Izinha disse...

oi amigo,

aqui, normalmente não comemos feijão com batatas...mas deve ser um prato muito apetitoso.

bjos prá ti!

Efigênia Coutinho disse...

SOPA DE PEDRA A culinária do Ribatejo ...

Bom dia Daniel, eu adorei ler sua postagem, onde conta a história da
SOPA DE PEDRA, pois desde criança que escutava , e ficava curiosa, já conhecia, contudo a sua foi muito bem elaborada de verdade, PARABÉNS, recordar é viver,
Com admiração,
Efigênia Coutinho