quinta-feira, 9 de julho de 2009

mundo e vida

Prainha entre a cidade de Peniche e o farol de Cabo Carvoeiro.

O famoso dedregulho, Nau dos Corvos, que sobressai do mar, junto ao Cabo Carvoeiro, à vista da Ilha Berlenga, um local paradisíaco.

NOITES NOS BARES DA DOCA DE PENICHE

Trago à colação algumas noites passadas entre os estabelecimentos de bar na antiga doca do porto de pesca de Peniche no último lustro da década de cinquenta.
Tinha dezasseis anos, a família era numerosa, contava com mais sete irmãos, chegado o Verão, o pai tratava de armazenar comestíveis para o Inverno, um deles era o peixe seco ou salgado comprado em tempos de abundância.
No Verão, por haver fartura do que resultava preços mais acessíveis e ainda por se poder aproveitar bem os raios solares para a secagem. Nem sequer se falava em frigoríficos domésticos.
Havia, naquela época muito chicharro e sardinha, esperava-se que o preço baixasse, para o abastecimento. Chicharro a cinquenta centavos o par (disse bem, $50 o par), sardinha a dois escudos o quarteirão (era assim dita a contagem de vinte e cinco).
Mesmo assim, eu e o irmão imediatamente mais novo propusemos ao pai ir buscar o peixe a Peniche, para o que faríamos a viagem de cerca de dezoito quilómetros, ida e volta, a pé.
Proposta aceite e lá nos começámos a deslocar, normalmente nas noites de Domingo.
Andava-se com ligeireza e em pouco, estávamos a esperar que chegassem as muitas traineiras, a encher a grande extensão da descarga.
A espera, regra geral, era feita até madrugada passada nos bares a ver jogar dominó, assim como jogos mecânicos ou eléctricos, ler jornais sobretudo o "Diário Popular", que saindo de tarde, já trazia os resultados de todos os encontros de futebol.
Notícias a porem-me muitas interrogações:
- Como era possível?
Poucas horas após os jogos, chegarem num jornal a notícia dos respectivos resultados, como por exemplo o do Desportivo de Peniche, a militar na segunda divisão, um escalão inferior?
Apenas interrogações, mas ali estava eu a contemplar realidades, que pareciam impossíveis. Afinal só conhecia a aldeia da Bufarda, onde nascera e vivia.
As noites, cálidas do porto, com o seu mar sereno, os bares, a venda do pescado na lota tornavam-se uma festa de vida para um adolescente, já trabalhador na dureza do campo.
Madrugada fora, chegavam então as traineiras a abarrotar de pescaria e era ver a azáfama dos carregadores, em duo a transportar, numa vara em cabazes de verga com assas de cordel, todo o peixe.
Tecas feitas do mesmo; fruto do quinhão, distribuído por cada pescador, outras arranjadas que os mestres ofereciam a amigos, onde se contavam futebolistas do Desportivo de Peniche e ainda outras produzidas do que era, propositadamente, deixado cair por carregadores.
Todas estas no chão rodeadas dos respectivos vendedores a negociar, com eventuais compradores, resultavam num chinfrim, uma animação impar na noite. Dado que estas actividades eram ilegais, rondavam guardas-fiscais, a fazer vista grossa aqui, a fechar os olhos acolá, a pôr em debandada além.
As pessoas a retirarem logo para outro lado, sendo imposto apenas respeito, pois todos eram conhecidos mutuamente.
Eu e o meu irmão arranjávamos, cada uma sacada, muitas vezes negociávamos tecas de sardinha ou Chicharro. Só comprávamos a espécie de carapau quando o preço baixava a vinte centavos o par ($20) = a 0.002 cêntimos de hoje.
Depois regressávamos, com o carregamento e a satisfação da noite animada, da antiga doca, do grandioso porto de pesca de Peniche.
Era uma festa!...
Talvez a festa da capacidade de sofrimento da dura vida, dos anos cinquenta.

Daniel Costa

4 comentários:

vania marques disse...

amigo Daniel, queria te dizer que é muito bom ter vc como amigo,mesmo que seja um amigo virtual.vc tem uma grandiosidade maravilhosa.sua alegria de viver me contagiou, adimiro muito esse seu amor pela vida. cada vez que converso com vc tenho mais certeza do que quero p mim ,to aprendendo mt com vc,tenho o sonho de me tornar jornalista +tinha guardado esse sonho na gaveta porque pensava que ja era muito tarde para mim que ja estou com 37 anos e ainda estou terminando o ensino médio.conhecer vc foi um presente de Deus,atravez de suas histórias suas aventuras voltei a sonhar...um beijo meu amigo
fica com Deus...
muito obrigada por você existir.
ass:vania marques de almeida

VANUZA PANTALEÃO disse...

Que maravilha, Daniel!
Olha que já te admiro desde o início das nossas visitas, mas esse texto sobre a vida dos pescadores e mais essas imagens raras são sublimes.
Meu carinho e aplausos!!!Bjssss

Dulce disse...

Daniel

Que lembrancas lindas traz consigo meu amigo! Os anos cinquenta foram marcantes, foram um estilo de vida, foram únicos. Verdade que foram difíceis, mas foram doces também. São doces essas suas lembranças de dois jovens que no colaborar com o pai na ida pela madrugada a comprar seu alimento, acabavam por viver a vida noturna e excitante dos bares nas noites do porto...
Experiência ímpar, pois não?
Quantas histórias tem você, meu amigo, armazenadas em seu baú de lembrancas!... Que bom que partilha conosco cada uma delas, dando-nos a conhecer outros mundos, outros lugares que não aqueles em que viviamos, nesses mesmo dias, numa realidade diferente e não menos saudosa... Obrigada. Um abraço.

Dulce

jp disse...

Caro Daniel Costa,

Gostei de reviver a azáfama da Ribeira Velha no seu escrito.
É de continuar...

Apenas um reparo. A primeira foto refere-se à praia dos pescadores, junto à Casa das Marés, no Baleal, e não entre Peniche e o farol do Cabo Carvoeiro, como é indicado. Essa seria a Praia do Porto de Areia, com alguma semelhança, mas que não é a retratada.


Saudações Penicheiras
jp
http://amigos-de-peniche.blogspot.com/