segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Mundo e Vida

1967 - numa passagem pela courela do arneiro em lua-de-mel

HORTA NO ARNEIRO

Apesar do meu desenraizamento, porque Lisboa teve sempre lugar de destaque nos meus anseios e velhos sonhos a Bufarda, aldeia do Oeste, onde nasci e me criei não pode ser esquecida.
Tanto assim é, que a tenho referido em vários artigos do "JORNAL DA AMADORA", sendo-lhe um dedicado, especialmente.
As vezes que por lá passo são inferiores às recordações guardadas e que, aos poucos espero publicitar, mais como aventuras, já que procuro acompanhar os tempos modernos, com eles delicio-me.
Por volta dos dezoito anos, olhando a courela do Arneiro com bastante água, de restolho no Verão. Ao invés de produzir continuamente, explorando-de a riqueza da água, parece ter entrado no desinteresse do pai.
Assim propus, primeiro ao meu irmão criar ali, de novo a horta a dar que falar.
Este disse:
- Vê lá em que te metes!..
- O pai não vai gostar!...
- Como resposta obteve:
- Ele não vai saber!
De seguida falei do projecto à mãe, que sem delongas se entusiasmou.
Resultou um convénio:
- Produtos da horta, o que fosse necessário para a família.
- Verba realizar:
- Metade para a casa a outra parte dividida entre mim e o meu irmão. A horta perante o pai seria clandestina e seria trabalhada nas horas vagas, que tinha de incluir os próprios dias de Domingo.
- Naquele Verão, conseguira trabalho sazonal no arranjo da estrada, Lourinhã – Ribamar, o que facilitava, visto o trabalho ser de oito horas, em lugar do sol a sol.
Sobrava tempo útil para tratar da horta!
Tudo estava a dar certo, parece que tudo era bem orientado, até que num certo Domingo, numa das tabernas locais, que na altura vendiam de tudo e os homens se encontravam, para confraternizar, beber uns copos e tratar de assuntos, o pai foi abordado por alguém com a conversa seguinte:
- Zéi a tua horta do Arneiro está a ficar um espanto.
Espantado e admirado ficou o Zéi mas, pelo sim pelo não, depressa foi agarrar a habitual enxada e de imediato deu uma saltada à fazenda.
De facto, estava já a apreciar um belo panorama hortícola, numa propriedade sua sem se ter apercebido.
Entusiasmado com o que viu, entrou de colaborar sem recriminações. A partir daí, era o primeiro colaborador:
No Domingo seguinte pressuroso, foi fazer a habitual rega.
Eu a ver gostosamente e a descartar-me dessa obrigação.
Só à ceia (ao tempo era assim designado o jantar), o pai ufano disse:
Uma horta daquelas, se não fosse eu, ao Domingo ninguém se lembrava de a regar. Era uma recriminação amigável, mas o gozo que isso dava, tinha de ser refreado.
A horta, pode dizer-se como agora, era biológica:
- O terreno foi enriquecido com estrume, que levávamos do quintal, aos ombros em cestos de verga. O próprio terreno estava um mimo.
Eram partes de terreno vazias e logo cobertas com nova produção. Havia de tudo o que se gastava ou transaccionava.
Até que, fui cumprir o Serviço Militar e pensava ter construído, com a horta um prazer enquanto eficaz meio de rendimento.
Qual quê???
- Faltou o animador e apesar de terem ficado dois seguidores, apenas foi gerido o que estava em processo de imediato desenvolvimento.
De resto adeus horta!
Confesso a minha total desilusão, acentuando mais o meu desejo de recomeçar vida nova a trabalhar em Lisboa.
A partir daí, deixar rapidamente a Bufarda foi o cumprir do sonho enquanto antídoto.

Daniel Costa

6 comentários:

Dulce disse...

Daniel

Por ai se ve que todo empreendimento exige um coordenador competente e incansável e que mesmo gostando dos resultados, se uma pessoa não tiver garra, iniciativa, vontade de prosseguir, fica-se estagnado... Imagino a sua frustração e a tristeza de sua mãe.
Gostei muito desta sua narrativa. e gostei da foto também.

Princesa disse...

"Quando as coisas não acontecem
do jeito que a gente quer, é porque
vão acontecer melhor do que a
gente pensa."

Beijos.

BOTINHAS disse...

Meu caro Daniel
Parece que estou são como um pêro!
E pronto para outra - p'ra longe vá o agoiro!!!
O trabalho ressentiu-se com esta tão longa ausência; agora há que recuperar.
Embora eu tente não abusar... a verdade é que o trabalho acumulou-se tanto que nem sempre respeito as ordens para descansar.
Mais duas semanas e vou de férias, e nessa altura descansarei.
Quero agradecer o teu cuidado, amigo. Em breve vou ver se consigo publicar um post.
Abraço fraterno
Botinhas

RENATA MARIA PARREIRA CORDEIRO disse...

Que bonito relato, Daniel! É uma delícia ler o que vc escreve, as suas memórias são incríveis! Eu, particularmente, me interesso muito por memórias e quando são ricas me perco lendo-as.
Mais uma vez, a minha sincera admiração.
Beijos,
Renata
PS: Demorei a vir porque estava postando em nosso Blog e em meu Blog, não deu nem tempo de vc ver!

xistosa - (josé torres) disse...

A vida é feita de pequenos nadas, mesmo que nos tragam a amargura antiga (só possível com a comparação aos tempos actuais).
Mas o trabalho que sai das nossas mãos e braços tem mais valor.
E recordar é viver ...

Um abração

Andresa disse...

Bela sua observação Daniel.
Amei seu comentario
Fico feliz com seu prestigio...

Um grande abraço
Andresa Araujo