quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Mundo e Vida


ÁGUA-PÉ - O CHAMPANHE DO POVO

A água-pé é uma bebida feita de uvas, tal como o vinho, segundo me parece, mais utilizada na região centro de Portugal,
Na Bufarda, concelho de a cidade de Peniche é sede, a noventa quilómetros de Lisboa, considerada região saloia dizia-se com certa verdade ao bebê-la:
- Eis o verdadeiro champanhe do povo!...
Talvez consiga evocar um pouco a bebida, já que ajudei a fabricá-la na adolescência.
No fundo era um vinho mais fraco e sendo mais barato, era o que os patrões utilizavam para dar aos trabalhadores durante o dia, pelo menos no Inverno, depois torna-se menos convidativa.
Em Lisboa, pelo S. Martinho, toda a gente gostava (ou gosta) de comprar a sua água-pé, para acompanhar as castanhas em muitas casas, no tempo vendiam-na avulso.
No entanto, na capital, nunca me seduzia, porque lhe era atribuído o mesmo preço do vinho, mais por vezes, quando no fundo estava a adquirir-se, pura e simplesmente vinho misturado com água.
Também havia quem comprasse uvas, esmagando-as em casa num simples alguidar, em seguida deitava o líquido num recipiente próprio, enchia de água, deixava ferver e pronto!
Proclamava ter feito uma boa água pé!
Até passava dos dez graus!...
Esmagar uvas, fazer vinho, depois e deitar-lhe água nunca dá água-pé, por muito forte que saia.
A verdadeira bebida, que toma a designação, não deve ser feita de vinho mas sim de uva.
Procede-se assim:
- Espreme-se o pé feito do fruto da videira. Por cálculo, sai o mosto para fazer o vinho.
A seguir desmancha-se o pé, estendo-o por todo o lagar. Em seguida deita-se água, pisa-se tudo e deixa-se a macerar cerca de duas horas.
É então que se abre a bica, enquanto vai escorrendo para o tanque, ergue-se toda a massa debaixo da prensa, depois espreme-se até ao fim.
É assim que resulta o tal champanhe.
Que me lembre já o meu avô produzia uma água-pé de estalar e a do meu pai não lhe ficaria atrás, até parecia ter um gasoso, um sabor do outro mundo, com piquinhos e tudo.
Estando com a mão na massa, convém dizer que o bagaço, ficando lavado, no fundo era disso que se tratava, já não dava para fazer aguardente bagaceira.
Também do mosto fervido numa panela, resultava num néctar a que se dava o nome de arrobe, era utilizado na culinária.
Do mosto também se fazia vinho abafado.
Chamado assim, por consistir na simplicidade de não o deixar ferver, abafando-o com bagaço. De imediato fica feita uma bebida melosa e semi-doce.
No Oeste usava-se o método, com fins apenas de renovar a garrafeira da casa.
Diga-se que a venda da água-pé, ao público era e é proibida por lei.
No tempo da outra "senhora", um dia ouvi pedir um café frio.
Questionado o pai sobre o assunto, disse a razão ser simples:
- Quando havia alguém desconhecido por perto, pedia-se assim para evitar complicações, era logo entendido.

Daniel Costa

3 comentários:

RENATA MARIA PARREIRA CORDEIRO disse...

Deu-me água na boca! De água-pé e de boa e escorreita leitura com a que acabei de fazer.
Até isso vc fez na vida, Daniel! Acho que não falta mais nada, vc é um compêndio vivo! Já lhe disse e repito que a sua narrativa, o seu modo de narrar as suas memórias, me encanta muito. Perco-me. Poderia ficar horas, lendo o que vc escreve, e isso jamais seria tempo perdido. Um ser humano completo.
Beijos, querido,

Pensador disse...

Gosto de um bom vinho, e não tenho como negar a qualidade dos vinhos portugueses. Mas, infelizmente, nunca tive a oportunidade de experimentar a água-pé que você tão bem descreve neste texto. Quem sabe um dia, visitando seu país, aproveite a dica de pedir um "café frio"...

Andresa disse...

Obrigada amigo pelo carinho. Amei seu comentario

Um grande abraço
E uma otima sexta-feira,


Andresa Araujo