sábado, 12 de setembro de 2009

mundo e vida

Igreja de Olhão

BALE EM OLHÃO - AVENTURA

Tenho de recuar ao mês de Novembro, de mil novecentos e sessenta e um. Morava no Quartel de Infantaria 4 de Faro, integrado no Esquadrão de Cavalaria 297, na condição de adido à espera de embarque, destinado a prestar serviço em Angola, no combate à guerrilha do que fica nos anais da história como Guerra Colonial.
O Esquadrão terá sido dos primeiros a usar farda camuflada. Isto era novidade e teve muita importância, porque a juntar ao garbo dos militares de Cavalaria, despertava o interesse das moças (como dizem os algarvios), a que "chavalos" de vinte anos não ficavam indiferentes.
Ao tempo, só havia disponibilidades ao Domingo, o único dia em que se podiam usufruir os divertimentos, mesmo de gente na flor da idade, como os bailaricos, de que havia certa prodigalidade, com tocadores de concertina ao vivo. Gravadores de som já ia havendo mas eram privilégio de gente abastada.
Como sempre havia baile em Olhão, ciente de êxito combinei com o Cadaval, José Bento de seu nome, dar ali uma saltada. Acontecia a escassez de finança usual na época, o que não constituía entrave.
Deve ser assinalado, que um soldado arvorado, o nosso estatuto até ao embarque, tinha como mensalidade cerca de 8$70 (estimulante para a juventude de hoje, sem dúvida!...).
Qualquer despesa era sempre da conta do rapaz.
Tínhamos junto ao quartel a estação de comboios do Bom João (graça de designação).
Uma viagem de automotora custava 2$50, ir boleia era complicado por causa do RDM - Regulamento de Disciplina Militar, que proibia a boleia, os automóveis ainda eram escassos, pelo que na época era certo, os que víamos na estrada serem conduzidos por oficiais milicianos, que nos podiam tramar dizendo: "É pá, participo ao nosso comandante e levas uma porrada!..."
O que se apresentava como hipótese, no fundo, nunca aconteceria, porque um miliciano, também rapaz do nosso tempo, acabava por confraternizar. Aconteceu isso mesmo, só viemos a apanhar boleia perto de Olhão, quem apareceu, sem farda, era mesmo um oficial, sem pejo de declinar nome e posto militar portanto.
O Cadaval dançava muitos bem teve sempre par, eu nem tanto porque fui sempre mau dançarino, já que a dança faz-me perder a audição da música.
No conjunto, achámos a deslocação proveitosa, tanto mais que na pista evolucionava um oficial também fardado (um superior, com menos sorte).
Tínhamos de regressar a tempo de fazermos a entrada no quartel à meia-noite, como rezava o RDM. Calculado o tempo para o regresso fizemo-nos à estrada. Na estrada Olhão – Faro nada de boleia, na via em toda a extensão não se apresentava viva alma.
Chegamos ao quartel militar da Capital algarvia, mesmo ao fechar do portão, tal como se tinha previsto.
Acabava o que nos dias de hoje, era dado como odisseia, aventura e nem sei que mais, mas em 1961 era a realidade que se podia viver livremente.

Daniel Costa

5 comentários:

Dulce disse...

Daniel

Uma linda viagem ao passado.
As memórias fazem-nos reviver momentos.
um abraço

poetaeusou . . . disse...

*
de olhão,
como deveriamos ser, srsrsr,
,
abraço,
,
*

xistosa - (josé torres) disse...

É engraçado que foi em Olhão a única vez que comi caracóis.
Como já sou ranhoso, nunca mais.
Antigamente na tropa ganhava-se muito bem ... rsss, rsss, rsss
Já nem me recordo do que recebia e nem tenho saudades desse tempo, passou ... morreu.
Bailaricos, lembro-e de alguns, especialmente em Cheleiros, perto de Mafra, (penso que é assim que se chamava a povoação), onde até tínhamos direito a namorar.
E naquele tempo (1967), havia coisas que não havia ...
Ou que se inventavam.
Recordações da idade "vintage" e selvagem.

Um abraço.

FOTOS-SUSY disse...

OLÁ DANIEL, LINDO TER UM PASSADO PARA RECORDAR... SEJAM BOAS OU NÃO É UM PEDAÇO DA NOSSA VIDA... GOSTEI DE LER!!!
BEIJINHOS DE CARINHO

SUSY

lua prateada disse...

Olá amigo Daniel, faz tempo que não te fazia uma vizitinha mas como mais uma vez tinha um postalinho do amigo no sónico e eu por lá não me ageito muito, resolvi vir dar aqui uma olhadela...
E, olhadela essa que me deixou super feliz, pois o Daniel esteve na tropa bem pertinho de mim.Loulé...deve ter ouvido falar e Quarteira...
Outra coisa Daniel, á uma coisa que axo que não sabes...é que quando se dança,dá sim muito bem para ouvir a música é assim Daniel...pegas nela eheheh( a senhora )puxa-la para o meio da pista fexas os olhos e....apenas ouves e deixas-te levar pela música, eheheheheh.....Experimenta amigo e verás.
Estive a ler a tua história e é bem verdade amigo ...saudades daqueles tempos onde se podia andar e fazer o que queriamos e ninguem te fazia mal, enfim...
Bem vou deixar-te senão vais pensar( mas que mulher tão chata....) beijinho com carinho para ti amigo.
SOL