terça-feira, 13 de outubro de 2009

Mundo e Vida


PROFETAS DO NOSSO TEMPO

(Crónica de 1972)


Desço ao acaso a principal Avenida da grande metrópole. Vou encontrando jovens trajando vestes que primam por uma extravagância desordenada. O curioso porém, é que não consigo vislumbrar grande originalidade nos seus hábitos.
Não!... Não são originais aqueles guedelhudos, de vestes coçadas, nem sempre limpas mas berrantes. Já a Bíblia nos descrevia os celebrados profetas, de uma maneira que os podemos imaginar tal como se apresentam estes jovens de cabelos compridos com que me vou cruzando.
Porém, uma nova corrente de pensamento me parece transparecer através daquelas figuras. Por certo irão ficar exautas de clamar contra as paixões e sede de progresso que ameaçam a destruição do nosso género, sem que seja ouvido o seu protesto.
Acompanho os grandes acontecimentos que o avanço da humanidade vai forjando, pelo que me parece estranho o arrojo daqueles humanos que procuram viver concepções à margem do progresso. Dir-se-ia serem indivíduos oriundos de paragens, onde apesar de tudo, não chegou o cheiro da nossa brilhante civilização.
São gente sem complexos estes "profetas"!... Tal como qualquer precursor. Eles enfrentam com sobranceria os olhares do transeunte que é incapaz de ser discreto, mas sempre desdenhoso.
Relaciono estas extravagâncias com o aparecimento dos novos agrupamentos musicais, famosos em todo o Planeta, pela apresentação pouco convencional das suas figuras e a agudez dos seus sons instrumentais, e que já desencandiaram no Universo um movimento a que chamam de "mensagem" - uma nova maneira de protestar, produzindo música.
Talvez pela sua extravagância, esses grupos arrastam multidões até onde que se apresentem. Já só os campos podem comportar tamanhas hordas que atingem o delírio nos aplausos que tributam aos magos dessa música e sons infernais.
Meditando bem, talvez se possa concluir que haja tendência para o aparecimento duma nova religião. Resolvo interpelar um destes personagens que encontro, o que mais extravagante me parece.
Verifico no homem um olhar simpático, mas um sorriso velado. Não fala o meu idioma, mesmo assim consigo fazer-me entender para lhe ofertar uma bebida, um gesto bem acolhido.
O meu interlocutor afirma ter aderido a um "movimento" denominado "hippie", oriundo de S. Francisco, a grande urbe americana, famosa pela rapidez do seu progresso. Esse progresso, que é preciso travar, afirma, pela desumanidade de que se reveste, criando toda a sorte, de engenhos e formas de destruição de tudo o que se possa chamar vida.
Menciona até um casal jovem, que entusiasmado com esta nova maneira de encarar o nosso mundo, desfez-se da sua enorme fortuna. Distribuia-a a quem solicitara o seu quinhão. Mais do que pobres, também ricos arrecadaram. Ficara a lição!
- Só Jesus Cristo ou o Santo de Assis, teriam sido capazes de tamanha heroicidade.
Ia começar a ter simpatia por estes ideais jovens, que afinal se debatem por uma causa que já preocupa toda a humanidade, Essa humanidade que, embora apercebendo-se do facto, continua forjando a sua destrição, sem que utilize um qualquer processo que adregue retroceder nesse deslizar veloz para o abismo
Mas eis que já essoutro átomo do progresso, a informação, encontrou outros vocábulos para dissecar - tráfico e consumo de droga.
Começara a simpatizar com esses jovens, dizia, se os seus cabelos compridos, trages pouco convencionais e rostos exibindo sorrisos velados não fossem, na maioria dos casos, a máscara da entrada nesse mundo de alucinações, que é o das drogas.


Miguel Foz - pseudónimo de Daniel Costa - in extinto "Jornal do Oeste" de Rio Maior.

Daniel Costa

2 comentários:

xistosa - (josé torres) disse...

Em 1972 ainda não tinha nascido, rsss, rsss, rsss.
Não me lembro desses hippies, mas lembro-me, que vim de Angola em Março desse ano e de repente vi a liberdade que ele transmitiam.
Liberdade em tudo, talvez até o roçar da libertinagem.
Mas quando se é jovem há leis ou regras a cumprir?
Não quero voltar ao que passei, mas dei razão a muitos que conheci e que por vezes se lembravam de tomar banho ... então elas ...

Um abração.

xistosa - (josé torres) disse...

Só vim espreitar.

Também durmo pouco, ou muito, vá-se lá saber a medida certa.

Um abração