sábado, 17 de outubro de 2009

mundo e vida


O SANTUÁRIO - Conto da Ginjinha



Nos alvores da mocidade designou-me a boa fada para um lugar de "barman" numa daquelas casas que já vão caindo em desuso, mas que foram pontos de encontro obrigatórios para boémios desta benquista Lisboa. Algumas ainda existem com o nome de Ginjinhas.
O ara do mister situava-se junto do celebérrimo Parque Mayer, outro lugar que as musa jamais deixarão de proteger, pelo que esse cantinho de Lisboa tem sido fonte de inspiração a boémios, poetas, pintores, prosadores e que seu eu?... Talvez mesmo a escroques, numa miscelânea do sagrado com o profano.
Acumulando com o afã dos estudos, orgulhosamente servia as ginjinhas, popularizadas em vozes de oiro, como a de Amália ou Hermínia por exemplo.
Servia-as a pessoas famosas e não famosas. Ministros, vendedores de jornais, estudantes, pintores, escritores, artistas, turistas, criminosos e criminologistas. Considerava vantajosa experiência de viver rodeado de gente de todas as classes sociais. Experimentava pelo facto um orgulho extraordinário.
O desempenho diário da minha missão, naquele lugar que considerava maravilhoso e jamais deixarei de evocar, cessava com o badalar das duas da matina, hora em que por esse país cantam milhões de galos, anunciando o despertar do primeiro sono.
Num desses belos dias, mesmo á hora de encerrar, em que já por habituação o corpo exigia o merecido repouso, entra um estranho cliente.
Personagem de aspecto solitário, olhos pequenos, nariz achatado, olhar trocista.
A sua idade seria cinquenta anos, cinquenta anos calmos e dominadores.
Fazia lembrar qual judeu errante procurando avoengos que tivessem gozado o privilégio de terem tido por berço a sonhadora Lisboa.
Com naturalidade, fui solicitando bebidas que ia ingerindo com calma de grande filósofo.
Ia correndo o tempo, a hora de encerrar a "tasca" fora ultrapassada.
Os transeuntes, na sua maioria artistas, que iam saindo libertos das suas obrigatórias actuações nas salas do Parque, entravam felizes pelo ensejo de ainda poderem tomar a ginjinha e iam ficando, atraídos pelo personagem.
Mantendo a mesma serenidade, o mago já desbobinava o seu "show" de dialectos, que iam desde o português abrasileirado, até à língua dos czares, passando pelo espanhol aportuguesado, italiano, Inglês, francês e alemão.
A madrugada já se aproximava veloz e principiara ele a demonstrar outra face:
- A leitura nas linhas da palma da mão, de cada circunstante. Sempre a mágica serenidade de que só são possuídos querubins ou serafins.
A mistura de serenidade e palavras magicamente arrazoadas pareciam já capazes de arrastar uma multidão para o mais inóspito deserto...
Havia já sido formado um grupo, assim em jeito familiar. Cada um desatara a carpir os seus desaires. O álcool da ginjinha fazia surtir efeitos.
A vasta Avenida era completamente deserta. Na caixa registadora o metal soava, vindo dos magnos bolsos de tão espontânea clientela.
Dos milhares de escudos que se encontravam naquela, eu era eu o único responsável.
Não obstante a minha juventude, a escola que a vida me tinha ministrado aconselhou-me a suspender a sessão, com ordens sucessivas cheias de autoridade.
Embora com imprecações, os circunstantes aos poucos foram abandonado o "santuário".
Com a felicidade estampada no rosto, por sentir cumprido o dever de bom empregado, cerrei a porta do estabelecimento a sete chaves e altivamente, fui Avenida abaixo assobiando uma ária a ecoar na sonhadora solidão da cidade, que ainda se quedava adormecida.
Não me deixavam, porém, a mente os presságios que me assaltavam o espírito.
No dia seguinte, entre duas ginjas, alguns consulentes da enigmática, enquanto simpática figura, comentavam como haviam sido traídos na sua boa fé.
Quantias razoáveis haviam sido a paga que o desconhecido levara em troca de boas e rendosa promessas.
Sem deixar rasto, o farsante havia desaparecido, como que por artes de magia.


Miguel Foz (pseudónimo de Daniel Costa) - in extinto "Jornal do Oeste" - 04/11/1972.


EIS UMA DAS REALIDADES DA MINHA VIDA REPLETA DE AVENTURAS!

Daniel Costa

4 comentários:

Dulce disse...

Tantas e tão boas lembranças!... Retalhos de um viver pleno, momentos que meu amigo guarda no coração e hoje tem a bondade de dividir conosco. Obrigada pela partilha.
bom domingo!

xistosa - (josé torres) disse...

Costumo dizer:
"Bem vestido e bem falante, mas vigarista".

Há pessoas crédulas que pensam que o "bem", cai de um céu de nadas.

Ou o álcool, que também é bom para embaciar os pensamentos, mas principalmente a visão.

Um abraço.

poetaeusou . . . disse...

*
Jornal do Oeste
li alguns exemplares,
,
abraço
,
*

Val Du disse...

Daniel

Quantas recordações. Quantas aventuras.

É isso aí, amigo.

Beijos.