quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Mundo e Vida



HISTÓRIA QUE NÃO CONTEI



Da parte familiar paterna, havia a ideia de que não era curial enfatizar os êxitos pessoais. Tinham que ser as pessoas a darem pelos factos e menciona-los. Sempre achei errado, o que pode ser publicitado como facto consumado deve ser dito de viva voz.
Quando se pode mostrar obra realizada, deve mostrar-se, porque obviamente não serão os outros a enaltecer suficientemente o nosso trabalho.
Ao contrário projectos ou quejandos podem merecer a entrada no reino da neutralidade, enquanto o forem, senão poderemos ser tidos e criticados como falaciosos.
De qualquer modo pouco evoquei os meus pequenos êxitos ou feitos pessoais e serão alguns.
Um grande amigo, com quem conversava imenso, um dia disse-me: "já fizeste tudo, de facto és verdadeiro homem, plantaste árvores, fizeste um filho e agora um livro". Fiquei aparvalhado, porque me estava a ser atribuído um alto valor.
De facto, editava e dirigia um pequeno periódico mensal e ao fim de doze meses, mandei encaderná-lo. Era um livro.

A incidência do registo dessa publicação, por me parecer interessante vou aqui trazê-la.
Estávamos no ano de 1973, propriamente no mês de Janeiro, o meu B.I. ainda actualizado, o único documento exigido para registo da Revista, de Direcção e de Edição do periódico, dava-me como trabalhador agrícola, facto que à época estava mais que ultrapassado, por liceu e vários outros cursos, além de que tinha adquirido formação na área gráfica.
Foi com esse documento, que em nome próprio, registei no SNI - Secretariado Nacional de Informação, sito nos Restauradores, em Lisboa, onde era Secretário do Estado de Estado de Informação o Dr. Moreira Baptista, a FRANQUIA - Revista Filatélica Portuguesa.
Ficou obrigatoriamente registada a gráfica que a faria, a tiragem e nome do Director; Daniel Cordeiro Costa, que também podia utilizar o pseudónimo de Miguel Foz.
O atendimento, feito por uma senhora, decorreu dentro da maior cordialidade. Só mais de um ano volvido, apareceu concretizado o registo já tinham saído dois números da Revista, que se iniciara a 15 de Janeiro de 1974, depois do meu telefone estar sob escuta e de durante uns dias, ter notado o "acompanhamento" por um esbirro à saída de casa e outro na entrada de emprego, que ainda mantinha.
A aceitação ter-se-á dado porque a publicação era especializada e (erro) o Director não tinha de ser letrado, o que interessava era saber do tratado ficou isenta de censura prévia
Penso que a sorte também me bafejou, uma vez que sendo associado do Clube Filatélico de Portugal, onde dei conta do projecto.
Fazia parte da Assembleia-Geral um Tenente-Coronel pertencente ao grupo dos três Censores de topo, a quem incumbia aprovar o registo de novas publicações.
Terá procurado ali informações e como lhe foram dadas boas referências. A "palermice" produziu a escusa de se pensar em mais pormenores e de imediato terá sido feita a aprovação.
Vim a aprender entretanto, que filatelia é mesmo um mundo do saber. Considerava-me culturalmente capaz de estar à frente de uma qualquer edição em papel, nem sabia que me faltava aprender tanto, como aconteceu no mundo da filatelia.
Sendo assim, julgo ser detentor do ineditismo em Portugal, pelo menos depois de meados do século XX, ter protagonizado o registo e direcção de uma publicação periódica como trabalhador agrícola.
Nascido na Bufarda, freguesia de Atouguia da Baleia, concelho de Peniche, sou-o certeza.
Da revista FRANQUIA saíram trinta e sete números está encadernada em três volumes. Tornou-se economicamente inviável, curiosamente porque acabou o grande mercado de Angola, donde chegavam assinaturas em todos os transportes aéreos, pagas em cautelas premiadas e rebatidas depois. A transferência de dinheiro era interdita.
Depois, servindo-me dos nomes do ficheiro e da mesma designação e registo, parti para outra versão.
A revista passou a ser mais jornaleco, mais comercial, mais catálogo de vendas de nome "Bolsa Jornal Clube FRANQUIA", Foram editados duzentos e vinte e três números.
Pode parecer mentira mas ajudou a anular a coluna débito.


Daniel Costa





1 comentário:

xistosa - (josé torres) disse...

Por que não enaltecermos os nossos "feitos"?
Não serão actos que possam figurar na História, com letra gorda, mas ficam na história de quem viveu os episódios de vida.

Mas pelo que li, serviu para compor "o estômago".
É uma história de vida.

Um abraço.